Descobertas arqueológicas revelam um passado agrícola vibrante no Cerrado brasileiro, com práticas que remontam a mil anos.
Há cerca de mil anos, o Cerrado brasileiro, hoje conhecido por suas vastas áreas de expansão agrícola moderna, testemunhou seu primeiro grande florescimento agrário. Povos indígenas que habitavam as regiões que hoje compreendem Goiás, Minas Gerais e Bahia intensificaram a produção de milho, levando ao desenvolvimento de grandes aldeias circulares capazes de abrigar até 2.000 pessoas. Essa descoberta, publicada na revista Science Advances, desafia visões simplistas do passado da região e lança luz sobre as sofisticadas práticas de manejo territorial de comunidades ancestrais.
Ao contrário das monoculturas predominantes na agricultura comercial atual, os pioneiros agrícolas do Cerrado há um milênio adotavam um modelo de policultura, combinando o cultivo de milho com uma variedade de outras plantas. Além disso, estudos indicam um aumento significativo no consumo de carne em comparação com gerações anteriores. Essas conclusões são fruto de uma análise detalhada da composição química de ossos e dentes humanos e animais com séculos de idade, realizada por uma equipe internacional de cientistas brasileiros, europeus e norte-americanos.
A pesquisa, que analisou dados de 37 sítios arqueológicos e 101 restos mortais humanos com idades entre 1.050 e 330 anos, focou na tradição cultural Aratu, caracterizada por sua cerâmica simples e urnas funerárias. Os achados foram comparados com outras tradições arqueológicas contemporâneas, como a Una e a do “sertão”, também produtoras de cerâmica. A análise isotópica de carbono e nitrogênio nos ossos e dentes permitiu rastrear as dietas dessas populações antigas.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela revista Science Advances.
A Ciência por Trás da Dieta Antiga
O método central da pesquisa envolveu a medição de isótopos de carbono e nitrogênio presentes no colágeno dos ossos e no esmalte dos dentes. Isótopos são variantes de um mesmo elemento químico com massas atômicas diferentes. Esses “pesos” distintos afetam a forma como são absorvidos pelos organismos ao longo da cadeia alimentar. O milho, classificado como uma gramínea tropical C4, tem uma tendência a absorver maiores quantidades de um isótopo específico de carbono, o carbono-13. Assim, indivíduos que consumiam grandes volumes de milho apresentavam uma “assinatura” elevada desse isótopo em seus restos mortais.
Os pesquisadores observaram que os indivíduos associados à tradição Aratu apresentavam níveis significativamente mais altos de carbono-13 em comparação com grupos de outras tradições arqueológicas e com animais silvestres da época, como veados, porcos-do-mato, tamanduás e roedores. Essa evidência reforça a hipótese de um consumo intensivo de milho por essas populações.
Mistérios e Diversidade na Alimentação
A análise revelou uma complexidade interessante: nem todos os indivíduos Aratu apresentavam a mesma proporção de carbono-13, indicando uma dieta “mista” em alguns casos. Inicialmente, os cientistas cogitaram que isso poderia ser resultado de um aumento gradual no consumo de milho ao longo do tempo. No entanto, o indivíduo Aratu mais antigo na amostra já apresentava um dos níveis mais elevados de carbono-13, o que sugere que a cronologia não explica completamente essa variação, um ponto que exigirá investigações futuras.
Paralelamente, o estudo dos isótopos de nitrogênio apontou para um aumento no consumo de carne entre os grupos Aratu, um fato que também intriga os pesquisadores. A escassez de coleções de fauna em sítios Aratu dificulta, por ora, uma compreensão mais aprofundada desse aspecto da dieta.
Um Cerrado de Inovações e Diversidade Agrícola
Evidências bioquímicas e achados de restos vegetais nos sítios Aratu indicam que, apesar da proeminência do milho, as aldeias cultivavam uma gama diversificada de alimentos. Batata-doce, mandioca, feijão, amendoim e abóbora são listados como prováveis culturas, além do algodão, utilizado na produção têxtil. Há também indícios da fabricação de bebidas alcoólicas.
“O Cerrado tem sido frequentemente ofuscado pela Amazônia nas discussões sobre o uso da terra no período pré-colonial. Nossos resultados demonstram que ele também foi um centro de inovação, no qual diferentes sociedades desenvolveram formas distintas de interagir com uma das paisagens tropicais mais biodiversas do mundo”, resume André Strauss, um dos coordenadores do estudo.
Lacunas e Próximos Passos
Ainda existe uma lacuna temporal entre a chegada do milho ao Cerrado, estimada em pelo menos 4.000 anos atrás, e o período de formação dessas grandes aldeias associadas à agricultura intensiva, que ocorreu mais de um milênio antes do presente. Os pesquisadores buscam preencher essa lacuna com a descoberta de sítios arqueológicos e esqueletos datados desse período intermediário.
Apesar de não haver uma ligação direta comprovada entre os grupos Aratu e os povos indígenas atuais, há possíveis elos com etnias da família linguística Jê, como os Karajá e os Xavante. A continuidade das pesquisas arqueológicas e das análises isotópicas promete revelar ainda mais sobre a complexa história de ocupação e manejo do Cerrado pelos seus habitantes originários.
