Revista científica retira estudo sobre horário de imunoterapia após suspeitas de irregularidades
Um estudo publicado em fevereiro na prestigiada revista científica Nature Medicine, que sugeria que o horário de administração da imunoterapia poderia impactar significativamente a sobrevida de pacientes com câncer de pulmão, foi retratado pela publicação. A decisão foi tomada após a identificação de uma série de inconsistências e irregularidades na metodologia e nos resultados da pesquisa.
O artigo original, que gerou grande repercussão e levou pacientes a questionarem seus médicos sobre a possibilidade de mudar seus horários de infusão para períodos matinais, apontava que pacientes que recebiam a medicação pela manhã apresentavam um controle mais prolongado da doença e uma sobrevida quase duas vezes maior em comparação com aqueles tratados à tarde. No entanto, a Nature Medicine, após uma revisão póstuma, declarou não ter mais confiança na integridade dos resultados.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
Suspeitas de irregularidades levam à retratação
Entre os pontos levantados pela revista em seu aviso de retratação estão alterações em registros que deveriam ter sido bloqueados antes do início do estudo, discrepâncias entre as versões chinesa e traduzida do plano de pesquisa, e um índice incomumente baixo de desistências de pacientes por efeitos colaterais, algo considerado raro em estudos oncológicos. Além disso, foram observados padrões incomuns no cronograma de exames de acompanhamento.
Toni Choueiri, oncologista do Instituto para Câncer Dana-Farber e um dos revisores do estudo, descreveu a situação como “bom demais para ser verdade”. A revista enfatizou que, devido à quantidade e natureza dos problemas identificados, a integridade dos resultados não pode mais ser garantida.
Contexto da pesquisa e o cenário biomédico chinês
O estudo retratado, financiado pelo governo chinês, envolveu 210 pacientes com câncer de pulmão avançado no Hospital de Câncer de Hunan. Os pesquisadores haviam relatado que os tumores não progrediram por 11 meses em pacientes tratados pela manhã, contra seis meses nos tratados à tarde, e que a sobrevida média era de 28 meses versus 17 meses, respectivamente.
A China tem investido pesadamente em pesquisa biomédica, impulsionando um aumento em patentes e publicações. Essa ascensão a potência no desenvolvimento de medicamentos, embora vista com otimismo por alguns, também levanta questões sobre a confiabilidade da pesquisa científica no país. Especialistas apontam que, enquanto alguns cientistas chineses seguem rigorosos padrões de pesquisa, outros podem adotar atalhos.
Agradecimentos à comunidade científica e pedidos de desculpas
Yongchang Zhang, um dos autores do estudo, emitiu um comunicado reconhecendo que a execução do estudo e a preparação do manuscrito podem não ter atingido os padrões esperados para publicação em uma revista de alto impacto. Ele pediu sinceras desculpas à revista e seus leitores pelos inconvenientes causados.
Poucos dias após a publicação do estudo, especialistas como Anil Makam, epidemiologista da Universidade da Califórnia, levantaram preocupações em redes sociais e blogs. A Nature Medicine agiu prontamente, publicando uma nota editorial para investigar as questões levantadas e, posteriormente, efetuando a retratação. João Monteiro, editor-chefe da revista, agradeceu à comunidade de pesquisa por chamar a atenção para as preocupações, ressaltando a importância da vigilância científica para a integridade da informação médica.
