O sonho de um corpo perfeito tem se tornado um pesadelo para muitas pessoas no Reino Unido, onde o mercado de procedimentos estéticos injetáveis, impulsionado por redes sociais e pela busca por resultados rápidos, opera em um vácuo regulatório perigoso. O caso de Alice Webb, que morreu após um lifting de bumbum não cirúrgico em setembro de 2024, é apenas a ponta de um iceberg de complicações graves, infecções e danos permanentes que assolam o setor.
A expansão desenfreada de clínicas temporárias em salões de beleza, escritórios alugados e até quartos de hotel tem permitido que profissionais sem a devida qualificação ofereçam procedimentos com preenchimentos dérmicos e toxina botulínica (Botox) em condições precárias. A falta de regulamentação rigorosa no Reino Unido, ao contrário de muitos países europeus, permite que qualquer pessoa se qualifique para aplicar essas substâncias, criando um ambiente propício para exploração e negligência. A organização Save Face, que credencia profissionais e clínicas de estética, relata inúmeros casos de danos severos, incluindo perda da capacidade de fechar os olhos e perfurações intestinais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados por BBC News e investigações jornalísticas independentes.
Um Mercado em Expansão e Pouco Controlado
O perfil do consumidor de procedimentos estéticos mudou drasticamente. Se antes eram associados a um público mais velho e abastado em busca de tratamentos antienvelhecimento, hoje, impulsionados por influenciadores digitais e programas de TV, procedimentos como preenchimento labial, contorno facial e o popular Brazilian butt lift (BBL) são vistos como tratamentos de beleza rotineiros por um público cada vez mais jovem. A facilidade de acesso, a promessa de resultados imediatos e a normalização desses procedimentos em ambientes não médicos contribuem para que muitos pacientes priorizem conveniência e preço em detrimento da segurança e da qualificação profissional.
Uma pesquisa recente revelou um crescimento alarmante no número de profissionais atuando no Reino Unido, com um aumento significativo de esteticistas sem formação médica. Curiosamente, a concentração desses profissionais é maior em comunidades mais pobres, onde o acesso a profissionais com formação médica é mais limitado, aumentando o risco para populações vulneráveis.
Riscos e Consequências Reais
Relatos de mulheres como Joanne, que sofreu sepse após um BBL não cirúrgico em uma clínica improvisada, e Louise Moller, que precisou de remoção de tecido necrosado após uma infecção generalizada, ilustram a gravidade das complicações. A dificuldade em obter justiça, com investigações policiais fragmentadas e lentas, agrava o sofrimento das vítimas. Profissionais como Ricky Sawyer, que continuou oferecendo procedimentos perigosos mesmo após ser proibido de atuar, demonstram a fragilidade da fiscalização.
Além dos profissionais, a qualidade dos produtos utilizados também é uma preocupação. A circulação de medicamentos ilegais e falsificados, como o Botox, é um problema recorrente, com apreensões significativas de substâncias não autorizadas. A fragmentação da responsabilidade entre diferentes órgãos fiscalizadores dificulta a supervisão eficaz do setor.
Promessas de Reforma, Realidade Lenta
Apesar de alertas sobre uma “crise prestes a acontecer” desde 2013, as reformas no setor de procedimentos estéticos têm sido adiadas. O governo do Reino Unido anunciou planos para endurecer a regulamentação, com a intenção de criar um sistema de licenciamento para procedimentos não cirúrgicos, priorizando aqueles considerados de maior risco. Na Escócia, uma nova lei restringirá a aplicação de Botox e preenchedores a clínicas regulamentadas e proibirá o procedimento em menores de 18 anos. No entanto, a implementação completa de tais sistemas exigirá nova legislação, regulamentos detalhados e recursos adequados para fiscalização, um processo que pode levar anos.
Enquanto as autoridades buscam estabelecer um marco regulatório mais seguro, pacientes continuam expostos a riscos significativos. A falta de um órgão centralizado e a complexidade da fiscalização deixam um vácuo onde a segurança do paciente é frequentemente secundária à conveniência e ao lucro, um cenário que, como o trágico caso de Alice Webb demonstra, pode ter consequências fatais.
