A complexa trajetória do LSD no imaginário público é marcada por uma época em que a substância psicodélica era promovida por grandes farmacêuticas. Filmes produzidos nas décadas de 1960 e 1970 revelam essa fase peculiar, mostrando como o ácido lisérgico (LSD) transitou de ferramenta de pesquisa clínica para um símbolo de contracultura, culminando em sua proibição e estigmatização.
Na década de 1960, a Sandoz, uma empresa farmacêutica suíça, não apenas distribuía LSD para uso médico e psicoterapêutico sob a marca Delysid, mas também produzia materiais audiovisuais para apresentar seus fármacos em congressos e eventos. Dois documentários de épocas distintas ilustram essa estratégia: “Imagens do Mundo Visionário” (1963) e “Acid” (1971).
O primeiro filme, encomendado ao artista belga-francês Henri Michaux, buscou retratar os efeitos subjetivos da mescalina, um psicodélico similar ao LSD. Michaux, conhecido por suas explorações místicas e viagens, alertou previamente sobre a dificuldade, senão a impossibilidade, de transpor a experiência mental em imagens cinematográficas. O resultado, com recursos visuais limitados como pulsos de luz e zooms repetitivos, distante da estética psicodélica vibrante hoje conhecida, reflete o desafio de capturar a inefabilidade da experiência psicodélica, um feito que, segundo o próprio artista, não foi plenamente alcançado.
A Virada Proibicionista e o Papel da Sandoz
Já o filme “Acid”, concluído em 1971, marca uma guinada radical na abordagem. Produzido em um contexto de crescente proibicionismo, com a declaração da guerra às drogas por Richard Nixon e o foco em LSD e cannabis como impulsionadores da contracultura, o documentário, embora ainda com a participação de entidades ligadas à Sandoz, adota um tom bifronte. Ele reconhece o potencial terapêutico do LSD, exibindo depoimentos de figuras como Stanislav Grof e apresentando resultados promissores no tratamento do alcoolismo, onde uma parcela significativa dos voluntários mantinha a abstinência após a terapia psicodélica.
Contudo, o filme também enfatiza os relatos negativos de usuários, detalhando experiências desastrosas e comparando as “bad trips” a surtos psicóticos. Uma pesquisadora chega a comparar o LSD à energia atômica, numa hipérbole que sublinha o potencial destrutivo percebido. Esses documentos históricos são valiosos por demonstrarem o prestígio clínico e cultural que as substâncias psicodélicas já possuíram, antes de serem suplantadas por uma mentalidade conservadora e repressiva.
Curiosamente, observa-se hoje um novo interesse da direita em substâncias psicodélicas, focado na mitigação de sofrimentos psíquicos associados à era digital e à inteligência artificial, em contraste com a promessa emancipatória que perdurou no movimento contracultural. Resta aguardar quais novas narrativas cinematográficas surgirão a partir dessa mais recente reviravolta no uso e percepção dos psicodélicos.
As informações foram reunidas a partir de análises de filmes como “Imagens do Mundo Visionário” (1963) e “Acid” (1971), e pesquisas sobre a história do LSD.
