Fatores biológicos podem explicar menor incidência de autismo em meninas?
Fatores biológicos podem explicar menor incidência de autismo em meninas?

Fatores biológicos podem explicar menor incidência de autismo em meninas?

A ciência investiga a menor taxa de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em meninas e aponta para possíveis explicações biológicas e sociais. A proporção de diagnósticos de autismo é significativamente menor em meninas, com cerca de três casos em meninos para cada ocorrência no sexo feminino. Embora a maioria das pesquisas aponte para […]

Resumo

A ciência investiga a menor taxa de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) em meninas e aponta para possíveis explicações biológicas e sociais.

A proporção de diagnósticos de autismo é significativamente menor em meninas, com cerca de três casos em meninos para cada ocorrência no sexo feminino. Embora a maioria das pesquisas aponte para um viés nas avaliações, que dificulta a identificação dos sinais do transtorno em garotas, um estudo recente publicado na Nature Genetics sugere que um fator genético de proteção pode estar em jogo.

A investigação indica que uma diferença cromossômica entre os sexos pode reduzir a incidência de autismo em meninas. A principal distinção genética reside no 23º par de cromossomos: homens possuem XY e mulheres, XX. Durante a formação embrionária, para evitar o excesso de proteínas, as células femininas inativam um dos cromossomos X de forma aleatória.

Conduzido por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), o estudo propõe que esse cromossomo X inativo pode funcionar como um mecanismo protetor genético contra transtornos do neurodesenvolvimento, como o autismo. Conforme explica o neurologista Erasmo Casella, especialista em neurodesenvolvimento do Einstein Hospital Israelita, mesmo inativo, o cromossomo X mantém uma pequena expressão genética (entre 15% e 25%), o que garante regularidade na formação celular e maior resiliência ao desenvolvimento neurológico.

O papel protetor do cromossomo X

Essa proteção implicaria que meninas precisariam acumular mais mutações genéticas do que meninos para desenvolver o transtorno. Síndromes genéticas que afetam o 23º par de cromossomos reforçam essa hipótese. A síndrome de Turner, por exemplo, que afeta mulheres com apenas um cromossomo X, está associada a taxas mais elevadas de TEA e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), sugerindo que a ausência da expressão adicional do segundo X comprometeria o mecanismo protetor.

Por outro lado, síndromes com um cromossomo X a mais, como a de Klinefelter (homens com XXY, onde um X é inativo), também apresentam risco aumentado de TEA. Esse dado, aparentemente contraditório, reforça a ideia de que a proteção natural do X inativo depende do equilíbrio: tanto o excesso quanto a falta de expressão alteram o risco neurológico.

Barreiras sociais ainda dificultam o diagnóstico

Apesar das evidências de um fator biológico protetor, o estudo ressalta que ele não elimina as barreiras sociais que complicam o diagnóstico de autismo em meninas. O comportamento autista feminino tende a ser mais sutil e socialmente mais tolerado, tornando-o menos visível que o masculino. Sinais como hiperfoco e uma postura mais reservada podem ser confundidos com comportamentos típicos esperados para meninas.

Adicionalmente, é comum que meninas desenvolvam estratégias de “camuflagem social”, aprendendo a imitar comportamentos neurotípicos. Essa adaptação, embora útil na convivência, pode mascarar os sinais do transtorno para pais, educadores e clínicos, resultando em diagnósticos tardios e na perda de intervenções terapêuticas cruciais em fases iniciais do desenvolvimento, quando a plasticidade neurológica é maior.

A compreensão das diferenças biológicas não deve, contudo, aprofundar as dificuldades diagnósticas. O estudo reforça a necessidade de atualizar os critérios de triagem e capacitar profissionais para reconhecer as manifestações femininas do autismo, considerando suas particularidades sem subestimar a gravidade da condição.

Tags:

Veja Também

CVC enfrenta desvalorização histórica e busca reorientação no mercado de viagens

CVC enfrenta desvalorização histórica e busca reorientação no mercado de viagens

Depressão Resistente ao Tratamento: Novas Esperanças e Abordagens Terapêuticas

Depressão Resistente ao Tratamento: Novas Esperanças e Abordagens Terapêuticas

Piloto brasileiro homenageia Lito Sousa com voo no céu do Texas

Piloto brasileiro homenageia Lito Sousa com voo no céu do Texas

Entidades pedem maior controle sobre 'big techs' para proteger crianças e adolescentes

Entidades pedem maior controle sobre ‘big techs’ para proteger crianças e adolescentes

Janja repudia falas de Renan Santos em debate e o acusa de misóginia

Janja repudia falas de Renan Santos em debate e o acusa de misóginia