O fascínio pela otimização da saúde tem levado muitas pessoas a um consumo desenfreado de suplementos, mas essa busca incessante por bem-estar pode ter consequências graves.
O armário de muitos brasileiros, assim como o de pessoas em outras partes do mundo, tem se transformado em uma farmácia particular de suplementos. Creatina, vitamina D, magnésio, colágeno, misturas “tudo-em-um” e pílulas específicas para diferentes fases da vida tornaram-se comuns, muitas vezes impulsionados por um bombardeio constante de publicidade nas redes sociais. Uma pesquisa recente no Reino Unido revelou que 76% dos entrevistados consomem pelo menos um suplemento regularmente, e quase um quinto ingere quatro ou mais tipos diariamente.
Embora suplementos possam ser benéficos em casos de deficiência comprovada ou necessidade específica, especialistas alertam que a ânsia por “otimizar” a saúde pode, paradoxalmente, colocá-la em risco. Profissionais de saúde relatam um número crescente de pacientes com problemas hepáticos, renais e gastrointestinais, cujas origens apontam para o uso excessivo e variado de suplementos. A ideia de que uma pílula substitui uma dieta equilibrada é um equívoco perigoso, segundo nutricionistas.
A história de Ginger Smith, uma influenciadora digital de 30 anos, ilustra bem esse cenário. Ao receber diversos produtos gratuitamente, ela passou a consumir altas doses de vitamina C, vitamina D, cúrcuma, suplementos para inchaço e bebidas com eletrólitos. Por algum tempo, sentiu-se energizada, mas a verdade era que seus rins estavam sob imensa pressão. Dores lombares intensas a levaram a um diagnóstico alarmante: uma pedra nos rins de dois a três centímetros, que, segundo ela, foi causada pelo coquetel de suplementos. A remoção cirúrgica custou milhares de dólares, mesmo com plano de saúde.
Riscos Ocultos no Fígado e nos Rins
O gastroenterologista Pedro de Maria Pallares, do Hospital Universitário La Paz, em Madri, confirma a tendência. Ele observa que muitos pacientes chegam com problemas hepáticos sem saber a causa, até que, após investigações, revelam o uso de múltiplos suplementos. Pesquisas nos Estados Unidos indicam que até 20% dos casos de danos hepáticos podem ser atribuídos a misturas de suplementos fitoterápicos e dietéticos. Substâncias como vitamina A, glutamina, ashwagandha e extrato de chá verde, quando consumidas em altas doses, podem ser particularmente tóxicas para o fígado, podendo levar a doenças crônicas em caso de uso prolongado.
O British Liver Trust, uma instituição britânica dedicada à saúde do fígado, também reporta casos de lesão hepática associados à suplementação excessiva e aconselha cautela, ponderando se os benefícios potenciais superam os riscos. Karan Rajan, cirurgião do NHS e criador de conteúdo de saúde, embora tenha lançado sua própria linha de suplementos de fibra, reforça a necessidade de ceticismo. Ele reconhece que a densidade de nutrientes nos alimentos diminuiu ao longo das décadas, justificando o uso de alguns suplementos para suprir deficiências, mas ressalta os perigos de misturar produtos sem critério.
Interações e Doses Duplas: Um Campo Minado
A complexidade do uso de suplementos se agrava quando os pacientes, muitas vezes sem o saber, duplicam ingredientes, excedem as doses recomendadas ou combinam produtos que interagem com medicamentos prescritos. A professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do Royal College of GPs, alerta que “nem sempre mais é melhor”. Por exemplo, tomar um multivitamínico junto com um suplemento de vitamina B6 pode resultar em uma dose excessiva desta última, potencialmente causando danos aos nervos a longo prazo. A combinação de ferro, cálcio e magnésio pode prejudicar a absorção de cada um, e vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) podem se acumular no corpo, não necessitando de ingestão diária.
A nutricionista britânica Kristen Stavridis critica o papel das redes sociais na promoção de uma necessidade artificial por suplementos. Para adultos sem condições de saúde preexistentes, ela recomenda priorizar uma dieta balanceada, complementada com vitamina D nos meses de inverno e, se necessário, um multivitamínico ou óleo de peixe. Para mulheres com propensão à deficiência de ferro, suplementos podem ser úteis por um curto período. A mensagem central é clara: a base deve ser a alimentação, e qualquer suspeita de deficiência nutricional deve ser investigada por um profissional de saúde, sem pressupor que um suplemento resolverá o problema.
Ginger Smith, após sua dolorosa experiência, se recuperou e hoje se sente tão bem quanto quando tomava múltiplos suplementos, mas agora opta por um único multivitamínico diário. Sua jornada serve como um alerta: a busca por saúde através de suplementos deve ser informada, cautelosa e, acima de tudo, guiada por orientação médica e nutricional, priorizando sempre a integridade do corpo sobre a promessa de resultados rápidos.
