O Novo Campo de Batalha Aéreo na Colômbia
O recém-eleito presidente da Colômbia assume um país que enfrenta um desafio bélico cada vez mais tecnológico: o uso crescente de drones por grupos armados. Desde o primeiro registro em 2018, o número de ofensivas com esses veículos aéreos não tripulados disparou, com um aumento de 445% em 2025, totalizando 333 ataques em 12 meses. Este cenário surge menos de uma década após os Acordos de Paz de 2016, que buscaram encerrar o conflito armado com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia).
Relatórios do Ministério da Defesa colombiano e da agência da ONU para retirada de minas (UNMAS) indicam que a concentração desses incidentes ocorre em regiões historicamente afetadas por grupos armados, como Nariño, Cauca e Valle del Cauca, no sul do país, e Norte de Santander e Catatumbo. A Colômbia não está isolada nesta tendência, que também afeta outros países latino-americanos como México, Venezuela, Equador e Peru, conforme apontado pela UNMAS.
As informações foram compiladas a partir de dados divulgados pelo Ministério da Defesa da Colômbia e pela UNMAS.
Da Guerra Civil à Tecnologia de Guerra
A particularidade colombiana reside em um país que, após seis décadas de guerra civil, ainda lida com a desmobilização incompleta de suas guerrilhas. Especialistas apontam que a estrutura remanescente do conflito, incluindo ex-membros das Farc e paramilitares que se viram sem ocupação após os acordos, contribui para a proliferação de táticas e armamentos sofisticados. Essa transição, segundo Bruno Langeani, analista da Conflict Armament Research, pode gerar um contingente de mercenários com conhecimento militar, que já foram associados a eventos internacionais como o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse e conflitos na Ucrânia.
A transferência de tecnologia é evidente na semelhança dos drones apreendidos com equipamentos usados em outros conflitos globais. Embora a origem exata dos drones seja difícil de rastrear, estima-se que parte seja importada ilegalmente, com a Venezuela atuando como intermediária. No entanto, uma parcela significativa é adquirida legalmente em plataformas de venda, o que representa um desafio para a regulamentação, devido ao uso legítimo desses equipamentos em setores como agricultura e segurança.
O Impacto no Conflito e na População
A adaptação de drones para carregar explosivos transformou a dinâmica do conflito. Em 2025, foram registrados 414 incidentes com artefatos explosivos improvisados, incluindo os feitos a partir de drones, um aumento considerável em relação aos 167 casos em 2024. O custo-benefício é alarmante: um drone com explosivos pode destruir um helicóptero de milhões de dólares por um valor relativamente baixo.
O impacto nas baixas é significativo, com um aumento de 102% nas mortes causadas por ataques de drones entre 2023 e 2025, totalizando 938 vítimas. Tragicamente, civis, incluindo crianças, também têm sido vítimas. Um caso recente em Catatumbo, Norte de Santander, resultou na morte de um menino de 10 anos e ferimentos em sua família, evidenciando a necessidade urgente de medidas protetivas.
Diante desse cenário, o governo colombiano anunciou um investimento de US$ 1,6 bilhão para a construção de um escudo antidrones, a estratégia de defesa aérea mais ambiciosa do país, com o objetivo de proteger a população civil e as forças de segurança do uso ilegal de drones por grupos armados.
