Avanço clandestino de análogos de GLP-1 na fronteira
A retatrutida, um composto promissor para a perda de peso que ainda se encontra em fase experimental e sem aprovação regulatória em qualquer país, está se tornando um novo item no mercado clandestino de medicamentos contrabandeados do Paraguai para o Brasil. A situação espelha o cenário já observado com a tirzepatida, princípio ativo de medicamentos como Mounjaro, cujas apreensões na fronteira brasileira se tornaram rotineiras.
Agentes de repressão na região de Foz do Iguaçu relatam um aumento significativo nas apreensões de canetas e ampolas contendo a suposta retatrutida. Embora as embalagens apreendidas, como as vistas pela Folha na Receita Federal, sugiram origem na Alemanha ou no próprio Paraguai, a procedência exata do princípio ativo é incerta. O medicamento, por ser ainda experimental e de custo elevado, aparece em menor quantidade comparado à tirzepatida, que é popularmente conhecida como o “Mounjaro do Paraguai” em Ciudad del Este.
O mercado para a retatrutida é totalmente clandestino, diferentemente da tirzepatida, que, embora exija receita médica no Brasil, é facilmente adquirida sem prescrição no Paraguai. Farmacêuticos em farmácias paraguaias visitadas pela reportagem afirmaram não comercializar o medicamento e desconhecerem sua disponibilidade, indicando que sua obtenção é dificultada.
Potencial terapêutico e riscos da clandestinidade
A retatrutida atua como agonista dos receptores GLP-1, GIP e glucagon, mecanismos que promovem a saciedade, retardam o esvaziamento gástrico e influenciam o metabolismo, com potencial para ser a droga mais potente para perda de peso no mercado. Estudos da Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, indicam que a retatrutida pode levar à perda de mais de 28% do peso corporal em 18 meses, com projeções de submissão para aprovação regulatória no próximo ano.
No entanto, a ausência de aprovação por agências como a FDA (Food and Drug Administration) dos Estados Unidos e a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no Brasil, além de faltar uma etapa final de pesquisa comparativa com tratamentos existentes, acende um alerta. A venda e o uso de um medicamento ainda em testes, sem qualquer controle sanitário, representam um risco significativo à saúde pública, conforme alertam a Anvisa e a Polícia Federal em nota técnica conjunta.
Auditores fiscais da Receita Federal em Foz do Iguaçu apontam a retatrutida como um problema iminente. “O contrabando [de tirzepatida] começou imediatamente após o aparecimento desse medicamento no mercado formal. E imediatamente o Paraguai começou a importar isso… O volume desse produto [retatrutida] é uma crescente”, afirma Luciano Stremel Barros, presidente do Idesf (Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras), que expressa receio pela venda de algo que oficialmente não existe.
Operações de repressão e alertas sanitários
Operações de fiscalização na região de fronteira têm flagrado o contrabando. Em uma ação em Santa Terezinha do Itaipu, foram apreendidas mais de 2.200 unidades de medicamentos emagrecedores, incluindo cerca de 100 de retatrutida. O auditor fiscal Cláudio Roberto Caetano Marques, da Receita Federal em Foz do Iguaçu, ressalta os riscos: “Aqueles que tiveram algum problema, às vezes ninguém sabe se um está morrendo, morreu por alguma coisa ou outra. Daqui a pouco, as estatísticas de saúde vão dizer o número de pessoas que morreram, que tiveram sequelas por conta do uso desses medicamentos [paraguaios]”.
A nota técnica da Anvisa e da PF destaca que a circulação irregular de “canetas emagrecedoras” evidencia indícios de criminalidade organizada complexa, com uso de estruturas aparentemente legais para encobrir atividades clandestinas. Em abril, uma operação conjunta identificou a presença de retatrutida em três estados brasileiros, além da apreensão de mais de 17 mil frascos de tirzepatida manipulados irregularmente.
Apesar dos riscos, a promessa de alta eficácia na perda de peso, evidenciada em estudos preliminares, impulsiona a demanda e o contrabando. A retatrutida, com preços a partir de US$ 105 (aproximadamente R$ 546) por caneta, compete em um mercado que já viu o sucesso da tirzepatida, fabricada por empresas como a dinamarquesa Novo Nordisk (Ozempic e Wegovy) e a Eli Lilly.
