Animais domésticos não preenchem lacunas ecológicas deixadas pela megafauna extinta, aponta estudo
Animais domésticos não preenchem lacunas ecológicas deixadas pela megafauna extinta, aponta estudo

Animais domésticos não preenchem lacunas ecológicas deixadas pela megafauna extinta, aponta estudo

Ecossistemas brasileiros com ‘buracos’ ecológicos Os ecossistemas brasileiros, mesmo considerados entre os mais ricos do planeta, apresentam lacunas significativas devido à extinção de grandes mamíferos, a chamada megafauna, ocorrida há aproximadamente 10 mil anos. Esses animais, que incluíam espécies com mais de 300 kg e outros com mais de 50 kg, como cavalos, ursos, lhamas, […]

Resumo

Ecossistemas brasileiros com ‘buracos’ ecológicos

Os ecossistemas brasileiros, mesmo considerados entre os mais ricos do planeta, apresentam lacunas significativas devido à extinção de grandes mamíferos, a chamada megafauna, ocorrida há aproximadamente 10 mil anos. Esses animais, que incluíam espécies com mais de 300 kg e outros com mais de 50 kg, como cavalos, ursos, lhamas, parentes de elefantes, tigres dentes-de-sabre, tatus e preguiças-gigantes, desempenhavam papéis cruciais na dinâmica ecológica.

A ausência desses gigantes deixou “buracos” funcionais nos ecossistemas. Um exemplo claro é o fenômeno dos frutos “órfãos”, de grande porte, que provavelmente dependiam da megafauna para sua dispersão de sementes. Sem seus dispersores originais, a sobrevivência dessas árvores é comprometida.

A ideia de que a introdução de grandes animais domésticos, como bois, búfalos e ovelhas, poderia suprir essas funções ecológicas tem sido debatida. No entanto, um novo estudo publicado por pesquisadores da USP lança dúvidas sobre essa possibilidade, especialmente em ambientes de vegetação aberta.

Estudo no Pampa revela limitações dos animais domésticos

A pesquisa, focada no bioma Pampa no Rio Grande do Sul, analisou dados sobre a diversidade de espécies selvagens e domésticas e suas funções ecológicas desde o fim da Era do Gelo até os dias atuais. O objetivo era verificar se os animais domésticos atuais poderiam ocupar os nichos deixados pela megafauna extinta.

Em grande parte, a resposta foi negativa. O estudo concluiu que bovinos, caprinos e ovinos possuem funções ecológicas específicas que são novas no contexto do Pampa e não se alinham com as das espécies extintas. Pequenas exceções foram identificadas, como os cavalos domésticos, que possuem um parente próximo extinto (Equus neogeus), e o cervo chital (Axis axis), de origem indiana, que apresenta semelhanças ecológicas com o veado de grande porte extinto Antifer ensenadensis.

Proteção de espécies remanescentes é crucial

Os pesquisadores alertam que a pequena sobreposição funcional não é suficiente para afirmar que animais domésticos e exóticos possam restaurar a complexidade ecológica perdida. O estudo reforça a importância de focar na proteção das espécies ameaçadas que ainda são únicas em suas funções ecológicas, como antas, queixadas e cervos-do-pantanal.

A pesquisa, assinada por Thayara Carrasco e colegas da USP, sugere que os esforços de conservação devem priorizar a manutenção da biodiversidade nativa e a proteção das espécies que ainda desempenham papéis ecológicos insubstituíveis, em vez de depender de substitutos domésticos ou introduzidos.

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