Lula mira eleitorado de centro com nova “onda de bondades” e programa Desenrola ampliado, gerando preocupação com o futuro fiscal do país.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensifica sua estratégia eleitoral para 2026 com o lançamento de uma nova edição do programa Desenrola, desta vez voltada a consumidores e empresas que mantêm seus pagamentos em dia, mas enfrentam dificuldades financeiras. A medida amplia a aposta em renegociação de dívidas, buscando atrair o chamado “eleitor do meio”, considerado crucial para a definição de eleições polarizadas.
Essa iniciativa se soma a uma série de outras ações, como a expansão do Minha Casa, Minha Vida, isenção de Imposto de Renda para rendas mais baixas e linhas de crédito para categorias específicas. O objetivo é atingir segmentos da classe média, historicamente mais resistentes ao PT, com o intuito de ampliar a base de apoio do governo.
No entanto, a magnitude dos estímulos, que já ultrapassam os R$ 220 bilhões, levanta preocupações sobre o impacto fiscal. Especialistas apontam que a expansão dos gastos, incluindo mecanismos de crédito subsidiado e operações parafiscais, aumenta a dívida bruta e a percepção de risco fiscal, projetando um desafio considerável para o próximo governo. Conforme informações divulgadas por fontes ouvidas pela reportagem, a estratégia eleitoral do petista para 2026 está concentrando esforços não apenas em sua base, mas especialmente em uma parcela do eleitorado que costuma decidir disputas presidenciais polarizadas.
Custo Bilionário dos Estímulos e Resistência do Setor Financeiro
O novo programa Desenrola, que ainda enfrenta resistência do setor financeiro, é apenas uma peça em um amplo pacote de medidas. A ampliação do Minha Casa, Minha Vida para faixas de renda mais altas, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e linhas de crédito específicas para motoristas de aplicativo, taxistas e caminhoneiros compõem a ofensiva.
Segundo João Mario de França, economista do FGV Ibre, essas ações são direcionadas a “justamente segmentos da classe média, que historicamente demonstram maior resistência ao PT”. Somadas, as iniciativas já representam mais de R$ 220 bilhões em estímulos, distribuídos entre crédito subsidiado, renegociação de dívidas, incentivos tributários e habitação.
França expressou surpresa com a magnitude dos valores, que já se refletem na alta das projeções de inflação e juros. Ele observa que a criação contínua de novos pacotes sugere que os efeitos esperados em termos de aprovação não estão sendo alcançados. A sensação é de que o governo busca novas medidas porque as anteriores não surtiram o efeito desejado em termos de aprovação popular.
Risco Fiscal e a Sombra do Passado nas Contas Públicas
O economista destaca que a expansão dos gastos não se limita ao Orçamento tradicional. Parte relevante das iniciativas utiliza mecanismos de crédito subsidiado e operações parafiscais, que, embora com impacto limitado no resultado primário, aumentam a dívida bruta e a percepção de risco fiscal. “Isso só aumenta o desafio fiscal do próximo governo”, afirma França.
Ele alerta que o crescimento acelerado das despesas, combinado ao uso crescente de operações parafiscais e crédito subsidiado, leva a uma deterioração gradual das contas públicas. A trajetória atual começa a lembrar o ambiente que antecedeu a crise fiscal do segundo mandato de Dilma Rousseff. “O desastre só não será maior que o de Dilma, após a reeleição em 2014”, avalia.
Eficácia Eleitoral em Dúvida e a Corrida Contra o Tempo
Apesar do alto investimento, os ganhos de popularidade do presidente Lula ainda não atingiram o patamar esperado. Pesquisa Genial/Quaest divulgada em junho mostrou a aprovação do governo avançando quatro pontos percentuais entre abril e junho, de 43% para 47%, mas a desaprovação caiu apenas um ponto, de 49% para 48% no mesmo período.
O estrategista eleitoral Roberto Reis aponta que a campanha de Lula foca no “eleitor do meio”, que responde por cerca de 17% do eleitorado e pode definir o resultado de 2026. No entanto, a estratégia de “redistribuir dívida” pode ter um efeito contrário. O eleitor que hoje comemora o alívio financeiro poderá estar pagando as parcelas em outubro de 2026, e o peso dessas prestações pode substituir a sensação inicial de benefício.
A legislação eleitoral limita a criação de novos programas durante a campanha, o que leva a equipe de Lula a antecipar medidas com potencial de efeitos políticos futuros, mas sem garantia de que serão lembradas pelo eleitor. O programa de crédito para motoristas de aplicativo, com período de carência que adia o início dos pagamentos para depois das eleições, é visto como uma ação “mais inteligente” nesse sentido.
Disputa Eleitoral em Aberto e o Papel dos Votos Flutuantes
As pesquisas de intenção de voto indicam uma disputa acirrada. Lula aparece com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 29% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, a vantagem é de seis pontos: 44% a 38%. No entanto, a campanha de Bolsonaro opera com otimismo, acreditando que a eleição pode ser pulverizada por um grande número de candidatos.
Aliados do senador acreditam que, com uma base bolsonarista consolidada em torno de 15% do eleitorado, basta conquistar uma parcela adicional dos votos flutuantes para garantir a presença no segundo turno. A estratégia é obter cerca de 20% dos votos para chegar à fase decisiva. A campanha de Lula, embora tenha visto uma melhora recente, ainda busca consolidar uma liderança mais expressiva sobre o adversário, enquanto enfrenta o desafio de converter os benefícios econômicos em apoio eleitoral sólido.
