IA no Pará: Um Novo Olhar para o Diagnóstico Precoce de Transtornos Infantis
Alunos de 4 e 5 anos da rede municipal de Canaã dos Carajás, no Pará, estão participando de uma pesquisa inovadora que utiliza inteligência artificial para identificar sinais de Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC).
O projeto, desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA) em colaboração com escolas e profissionais de saúde locais, promete revolucionar a forma como esses transtornos são diagnosticados em fases iniciais, especialmente em regiões mais afastadas.
A iniciativa busca suprir a carência de recursos e métodos eficazes para a detecção precoce, que, segundo o coordenador da pesquisa, professor Renato Francês, do INCT IAmazônia da UFPA, é crucial para evitar prejuízos irreversíveis no desenvolvimento e aprendizado das crianças. Conforme informação divulgada pelos pesquisadores, a demora no diagnóstico pode gerar danos significativos.
Como a Inteligência Artificial Identifica os Sinais
O método envolve a instalação de câmeras nas salas de aula, onde professores registram as reações dos alunos durante atividades lúdicas, como ouvir histórias ou piadas. Um sistema de IA, então, analisa esses pequenos vídeos, quadro a quadro, para converter as respostas emocionais, ou a ausência delas, em dados estruturados.
Essa tecnologia é capaz de identificar padrões de comportamento consistentes, comparando as reações das crianças com as de outras, o que auxilia na detecção de possíveis neurodivergências. Cada aluno é avaliado individualmente, criando um histórico de suas respostas ao longo do tempo.
Os dados coletados são posteriormente organizados e analisados em laboratório na UFPA. A expectativa é que os resultados preliminares deste estudo, iniciado em abril de 2023, sejam apresentados nos próximos meses, oferecendo um novo horizonte para a saúde infantil.
IA como Ferramenta de Apoio, Não Substituição
É fundamental ressaltar que a inteligência artificial atua como uma ferramenta de apoio no processo diagnóstico. A pesquisadora Evelin Gomes, uma das coordenadoras do eixo Saúde Pública do INCT IAmazônia, explica que, caso o sistema aponte uma possível alteração, a criança é encaminhada para avaliação clínica por profissionais qualificados, seguindo os protocolos tradicionais.
Essa abordagem garante que eventuais falsos positivos sejam corrigidos pela análise humana. A tecnologia, embora promissora, ainda lida com a possibilidade de falsos negativos, reforçando a necessidade da supervisão e intervenção de especialistas.
Expansão e Considerações Futuras
Atualmente, o projeto está em andamento em três escolas de Canaã dos Carajás, com planos de expansão para outras cidades paraenses. A diretora de relações institucionais da Associação Brasileira de Autismo (Abra), Flávia Marçal, vê com bons olhos o potencial da IA em ampliar o uso de protocolos baseados em evidências científicas e em personalizar avaliações.
No entanto, Marçal enfatiza que as ferramentas tecnológicas não devem substituir o olhar humano e alerta para a ausência de regulamentação específica no Brasil sobre o uso de IA em diagnósticos, além da importância da proteção de dados e da preservação do direito ao diagnóstico. A psiquiatra Fabricia Signorelli, da Unifesp, também aponta que muitos sinais observados na infância não são exclusivos de um único quadro, destacando as limitações inerentes a essas tecnologias.
