Médico é investigado por suspeita de omissão após mortes de gestante e filho em hospital de Três Marias, MG
A Polícia Civil de Minas Gerais abriu um inquérito para investigar o obstetra Higo Moreira Fonseca, 42 anos, por suspeita de omissão no atendimento que teria levado à morte da gestante Bárbara Luana Fernandes Aleixo, 29 anos, e do filho que ela esperava, na cidade de Três Marias. O caso gerou grande comoção e levanta sérias questões sobre a conduta médica em situações de emergência.
Bárbara Luana deu entrada no Hospital São Francisco na noite de 8 de junho, com quadro de hipertensão e sinais compatíveis com pré-eclâmpsia, uma condição grave durante a gestação. Apesar de ter sido acionado, o médico investigado, que estava de sobreaviso, teria demorado a comparecer à unidade hospitalar, segundo aponta a investigação policial. A paciente e o bebê faleceram na madrugada seguinte após paradas cardiorrespiratórias.
O obstetra chegou a ser preso em flagrante no dia 9 de junho, mas foi liberado provisoriamente pela Justiça mediante o cumprimento de medidas cautelares. A polícia investiga o caso como duplo homicídio por dolo eventual, quando há assunção do risco de matar. A defesa do médico contesta as informações preliminares e afirma que o profissional está colaborando com as autoridades, ressaltando a complexidade do caso. Conforme informações divulgadas pela imprensa, o médico alega que não foi informado sobre a urgência obstétrica.
Versões Divergentes Sobre o Atendimento Emergencial
De acordo com a investigação policial, Bárbara Luana apresentou pressão arterial elevada e alterações em exames, indicativos de pré-eclâmpsia, ao dar entrada no hospital por volta das 20h30. A médica clínica geral que a atendeu relatou ter acionado Fonseca às 22h08, informando sobre o quadro hipertensivo. Segundo o depoimento da médica, o obstetra teria avaliado os resultados remotamente e minimizado a situação, sugerindo que os sintomas poderiam estar ligados à ansiedade, e não se prontificou a ir ao hospital.
O médico investigado, por sua vez, negou ter sido chamado para atender a uma emergência obstétrica. Em seu depoimento à polícia, Fonseca afirmou que as informações recebidas indicavam um quadro clínico sem sinais de urgência relacionados à gestação. Ele também declarou que chegou à unidade cerca de cinco minutos após ser acionado pelo diretor técnico do hospital, e que, ao chegar, a paciente já estava em estado crítico.
A investigação aponta que, por volta das 4h55, a paciente apresentou piora significativa. A médica de plantão voltou a ligar para Fonseca às 5h, mas, segundo o depoimento dela, o obstetra reiterou que o caso era clínico e não obstétrico. Às 5h17, Fonseca enviou uma mensagem em um grupo de WhatsApp de profissionais da unidade reforçando o entendimento de que gestantes com quadros clínicos deveriam ser conduzidas pela clínica médica, não pela obstetrícia.
Demora no Comparecimento e Decisão Sobre o Parto
O diretor técnico do hospital, ao perceber a gravidade da situação, entrou em contato com Fonseca. Segundo o diretor, após a quarta ligação, o obstetra atendeu e se prontificou a ir ao hospital. Ele chegou à unidade por volta das 5h35, quando a paciente já havia sofrido uma segunda parada cardiorrespiratória. As tentativas de reanimação não obtiveram sucesso, e o óbito foi confirmado às 5h45.
Durante as tentativas de reanimação, outros médicos sugeriram a realização imediata de uma cesariana de emergência para tentar salvar o bebê. Testemunhas afirmam que Fonseca chegou a solicitar materiais cirúrgicos, mas decidiu não realizar o parto, justificando que a criança poderia nascer com sequelas graves. O obstetra, em seu depoimento, disse ter desistido da cirurgia após ser informado de que a paciente estava em parada cardiorrespiratória há mais de cinco minutos, o que representaria alto risco de sequelas neurológicas graves para o bebê.
Contrato de Sobreaviso e Medidas Cautelares
O diretor técnico do hospital ressaltou que o contrato de sobreaviso previa que o obstetra deveria comparecer à unidade em até 15 minutos após ser acionado. A autoridade policial sustentou que o médico tinha conhecimento técnico sobre os riscos de evolução para eclâmpsia e assumiu o risco ao não comparecer para avaliar a paciente. A defesa de Fonseca, em nota, destacou que a atividade médica em regime de sobreaviso é uma modalidade reconhecida e regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina.
O Ministério Público pediu a conversão da prisão em flagrante em preventiva, argumentando que o investigado exercia função de direção clínica no hospital e poderia influenciar subordinados. No entanto, a Justiça revogou a prisão em flagrante, entendendo que medidas cautelares seriam suficientes. Entre elas, estão a proibição de acesso do profissional ao Hospital São Francisco, a vedação de contato com testemunhas e a suspensão do exercício de atividades médicas na rede pública de saúde, especialmente na área de obstetrícia.
Defesa Contesta Informações e Pede Cautela
A defesa de Higo Moreira Fonseca manifestou preocupação com a divulgação de informações incompletas e conclusões prematuras sobre o caso. Em nota, os advogados afirmaram que a investigação está em fase inicial e que o profissional está à disposição das autoridades. A defesa ressalta que o contexto assistencial é complexo e envolve aspectos técnicos, operacionais e médicos que precisam ser analisados criteriosamente.
A nota também expressou respeito e solidariedade aos familiares e amigos das vítimas. A reportagem tentou contato com o Hospital São Francisco para obter um posicionamento, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O caso continua sob investigação e promete trazer mais detalhes sobre as circunstâncias das trágicas mortes em Três Marias.
