Brasil e Estados Unidos, líderes mundiais na produção de etanol, estão imersos em uma complexa disputa comercial que vai além das fronteiras agrícolas e energéticas. O embate se intensifica com acusações de práticas comerciais desleais, a imposição de barreiras tarifárias e a defesa acirrada de mercados estratégicos para suas respectivas indústrias, baseadas na cana-de-açúcar e no milho.
A origem dessa rivalidade remonta a decisões políticas distintas que moldaram o mercado de biocombustíveis. No Brasil, a busca por independência energética e a redução da dependência do petróleo impulsionaram, desde 1975, o desenvolvimento do etanol a partir da cana-de-açúcar. Já nos Estados Unidos, o incentivo ao etanol de milho surgiu com o objetivo de melhorar a qualidade do ar nas cidades.
Atualmente, ambos os países produzem volumes excedentes de etanol, o que os leva a buscar mercados exportadores. Essa necessidade transforma o mercado internacional em um campo de batalha, onde o protecionismo e a defesa de interesses nacionais se tornam protagonistas. Conforme apurado pela equipe de reportagem da Gazeta do Povo, a disputa comercial entre Brasil e EUA pelo etanol é multifacetada e envolve diversos aspectos econômicos e ambientais.
A complexidade da guerra comercial pelo etanol entre Brasil e Estados Unidos se manifesta de diferentes formas, desde subsídios e tarifas até barreiras técnicas e narrativas ambientais. Essa disputa afeta não apenas os produtores, mas também os consumidores e as políticas energéticas globais, com impactos significativos no agronegócio de ambos os países.
Como os EUA se protegem no mercado de etanol?
Historicamente, os Estados Unidos utilizavam subsídios robustos e tarifas elevadas para barrar a entrada de etanol estrangeiro. Atualmente, mesmo com tarifas de importação mais baixas, o país recorre a **barreiras técnicas e burocráticas**. Para que o etanol brasileiro entre nos EUA com benefícios fiscais, é exigido um certificado de ‘biocombustível avançado’.
Este processo de certificação é notoriamente complexo, funcionando como um entrave significativo para o produto brasileiro. Na prática, essa exigência resulta em custos adicionais, tornando o etanol do Brasil menos competitivo no mercado americano, apesar das tarifas oficiais baixas.
Por que o Brasil passou a taxar o etanol dos EUA?
Até meados de 2017, o etanol de milho produzido nos Estados Unidos ingressava no Brasil sem a incidência de impostos. No entanto, naquele ano, uma **superprodução americana** resultou em um grande volume de etanol sendo exportado a preços extremamente baixos, o que prejudicou as usinas brasileiras de cana-de-açúcar.
Em resposta a essa situação, o governo brasileiro implementou, com base nas regras do Mercosul, um limite para o volume de importação de etanol dos EUA, acompanhado de uma taxa. Inicialmente de 20%, essa taxa foi ajustada para 18% sobre o volume que excede o teto estabelecido, visando proteger a produção nacional.
A autossuficiência brasileira no etanol de milho
O etanol americano já desempenhou um papel importante no Brasil, auxiliando na estabilização dos preços entre as safras de cana-de-açúcar. Contudo, o cenário interno mudou drasticamente com a ascensão do **etanol de milho**, que hoje representa quase 30% da produção total do país.
Com as usinas de milho operando de forma contínua, especialmente na região Centro-Oeste, o Brasil alcançou um patamar de **autossuficiência** e aumentou sua competitividade. Essa revolução interna reduziu consideravelmente a necessidade de importar etanol, alterando a dinâmica comercial com os Estados Unidos.
O que é a ‘guerra verde’ no setor de etanol?
A chamada ‘guerra verde’ refere-se a uma **disputa de narrativas ambientais** que é utilizada como ferramenta comercial na indústria do etanol. Pesquisadores americanos frequentemente acusam o Brasil de contribuir para o desmatamento de biomas para expandir o plantio de cana-de-açúcar.
Por outro lado, o Brasil critica os Estados Unidos pelo uso intensivo de fertilizantes químicos e de energia fóssil na produção de etanol de milho. Ambos os países buscam demonstrar que seu biocombustível é o ‘mais limpo’ para conquistar novos mercados, como os de aviação e transporte marítimo, onde a sustentabilidade é um fator cada vez mais decisivo.
