Um terço dos brasileiros com diabetes pode desenvolver retinopatia diabética, condição que pode levar à cegueira, segundo o Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO). A doença surge devido ao dano nos vasos sanguíneos da retina causado por níveis elevados de açúcar no sangue ao longo do tempo. Em sua fase inicial, a retinopatia diabética pode ser assintomática, mas é uma das principais causas de cegueira evitável em adultos.
Para alertar sobre os riscos e a importância do diagnóstico precoce, o CBO, em parceria com outras entidades como a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e a Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV), lança a campanha “24 Dias pelo Diabetes”, com início neste domingo (1º). A ação faz parte do Novembro Diabetes Azul, movimento global de conscientização sobre a doença, que tem seu dia mundial celebrado em 14 de novembro, data do nascimento de Frederick Banting, um dos descobridores da insulina.
A especialista Patrícia Duali, da SBD, reforça a necessidade de pessoas com diabetes realizarem avaliações oftalmológicas anuais. “Junto com o controle da glicemia, deve haver o controle da pressão arterial e dos lipídios. É muito importante lembrar que a ausência de sintomas oculares não significa que não exista retinopatia diabética”, alerta. Ela acrescenta que o diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para a preservação da visão, com a periodicidade dos exames variando conforme a idade e o tipo de diabetes do paciente.
A presidente do CBO, Maria Auxiliadora Frazão, destaca que o cuidado com a retina transcende a saúde ocular. “A gravidade da retinopatia também funciona como sinal para outras complicações do diabetes, como doença renal crônica, AVC, doença cardiovascular e doença arterial periférica com risco de amputação”, explica. Segundo ela, após 10 a 20 anos de diabetes sem acompanhamento adequado, o comprometimento da visão já pode ser significativo.
Acesso e Prevenção no Sistema de Saúde
O acesso ao oftalmologista é apontado como o principal gargalo no combate à retinopatia diabética, tanto no Sistema Único de Saúde (SUS) quanto na saúde suplementar. Especialistas defendem a reformulação de políticas públicas e o fortalecimento da conscientização coletiva para superar esse desafio. Uma estratégia proposta para otimizar o atendimento no SUS é a criação de triagens inteligentes nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), identificando e priorizando pacientes com maior risco para encaminhamento a níveis de atendimento mais especializados.
O oftalmologista Mauro Goldbaum, secretário-geral do CBO, ressalta que o surgimento da retinopatia é reflexo de anos de diabetes mal controlado e que a eficiência do sistema de saúde depende, primeiramente, do tratamento da doença na atenção básica. A atuação de médicos de outras especialidades, como cardiologistas, endocrinologistas e clínicos gerais, também é considerada crucial na prevenção. A recomendação para o exame de fundo de olho anual, mesmo na ausência de sintomas, pode evitar complicações graves.
Um avanço recente foi a inclusão oficial da oftalmologia nas equipes multiprofissionais da atenção primária do SUS, por meio de uma portaria publicada em 21 de outubro. No entanto, entidades médicas alertam que esta é apenas uma medida inicial, e o desafio agora é definir como essa inserção funcionará na prática diária dos postos de saúde.
Estatísticas e Impacto da Doença
De acordo com o CBO, a retinopatia diabética afeta entre 24% e 39% dos brasileiros com diabetes, com o risco aumentando conforme o tempo de diagnóstico da doença. Após duas décadas, 90% das pessoas com diabetes tipo 1 e 60% com diabetes tipo 2 podem apresentar algum grau de retinopatia. O diagnóstico e tratamento precoces são capazes de reduzir o risco de cegueira para menos de 5%.
A primeira ação da campanha “24 Dias pelo Diabetes” ocorrerá em 8 de novembro, no Parque Ceret, em São Paulo, com a 4ª Corrida e Caminhada da Sociedade Brasileira de Diabetes. O evento oferecerá exames de rastreamento para diabetes, identificação de fatores de risco, orientações sobre alimentação, atividade física, cuidados com os pés, além de retinografia e elastografia hepática.
