A presença de cães, como Toddy, Maria Pia e Gael, em alas pediátricas de hospitais tem se mostrado uma ferramenta poderosa para amenizar o sofrimento e a ansiedade de pacientes e até mesmo de profissionais de saúde. As visitas, parte de iniciativas de Atividades Assistidas por Animais (AAA), proporcionam momentos de alegria e descontração, contribuindo significativamente para o bem-estar geral.
Em corredores de hospitais, onde a rotina é marcada por exames, procedimentos e preocupações, a chegada de cães como Toddy, Maria Pia e Gael, acompanhados por voluntários da Terapia Cão Carinho, transforma o ambiente. Crianças internadas, mesmo com a ansiedade natural de suas condições, demonstram uma notável melhora no humor ao interagir com os animais. Nem mesmo a intensa rotina de médicos e enfermeiros parece resistir ao encanto dos pets, que muitas vezes participam com adereços temáticos, como os de Halloween.
A associação Terapia Cão Carinho realiza visitas mensais em parceria com o Hospital Santa Catarina, em São Paulo, desde fevereiro. Getúlio Gregório, gerente assistencial do hospital, destaca que essas interações oferecem uma valiosa pausa na rotina hospitalar. Alexandre Simões, educador físico e voluntário da associação, complementa que o objetivo é proporcionar momentos de alegria e acolhimento, visando reduzir a ansiedade, o medo e a solidão enfrentados pelos pacientes.
Evidências científicas comprovam os benefícios das AAA
As Atividades Assistidas por Animais (AAA) são reconhecidas por seu caráter recreativo, educativo e motivacional, podendo ser aplicadas em diversos ambientes, como hospitais, asilos e escolas. A médica-veterinária Cristiane Fraga, pesquisadora e voluntária do Inataa (Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por Animais), explica que há um embasamento científico robusto para os efeitos positivos observados.
Estudos apontam que o contato com animais pode gerar alterações fisiológicas benéficas. Minutos de interação positiva com pets são capazes de reduzir os níveis de cortisol, o hormônio do estresse, e aumentar a ocitocina, conhecida como o “hormônio do amor”, que promove empatia, confiança e conexão. Pesquisas também registram a diminuição da frequência cardíaca e da pressão arterial. Curiosamente, os benefícios não se limitam ao toque; a simples observação do animal e a troca de olhares já podem desencadear efeitos positivos, embora a resposta varie individualmente.
Seleção rigorosa e cuidados essenciais para animais terapeutas
Para que um animal participe de atividades de terapia assistida, não basta que seja dócil. Critérios como sociabilidade, tranquilidade e a capacidade de adaptação a diferentes pessoas, ruídos e ambientes desconhecidos são fundamentais. “O animal precisa gostar de interagir com pessoas, buscar espontaneamente o contato e se sentir confortável ao receber carinho, sem apenas tolerar a aproximação”, explica Fraga. Essa aptidão não é exclusiva de cães; associações como a Patas Therapeutas incluem em suas equipes cães, gatos, coelhos, furões e até galinhas.
Independentemente da espécie, protocolos de saúde rigorosos são seguidos, incluindo vacinação em dia, castração e avaliações veterinárias e comportamentais periódicas. Antes de iniciar as atividades, os animais passam por um processo de dessensibilização, que pode durar meses, para se adaptarem gradualmente aos estímulos encontrados em ambientes hospitalares, como barulhos, equipamentos e a presença de desconhecidos e outras espécies.
A segurança e o bem-estar animal são prioridades. A IAHAIO (Associação Internacional das Organizações de Interação Homem-Animal) recomenda limitar a participação em atividades a até uma hora para evitar sobrecarga de estímulos. Voluntários e tutores devem estar atentos a sinais de estresse nos animais, como lamber os lábios excessivamente, ofegar ou desviar o olhar, e interromper o contato se necessário. “O estresse pontual faz parte da experiência de qualquer ser vivo, mas não deve se tornar crônico”, ressalta Fraga.
Em hospitais, cuidados adicionais são cruciais. O Hospital Santa Catarina, por exemplo, exige que os cães estejam com a vacinação em dia, tomem banho até 24 horas antes da visita e não circulem pela rua antes de adentrar a unidade. A higienização rigorosa do hospital também é um ponto de atenção para garantir a segurança mútua entre pacientes e animais.
Encontros que marcam vidas
A fundadora da Patas Therapeutas, Silvana Prado, com 23 anos de experiência em AAA, ressalta a capacidade ímpar dos animais de se conectarem com as pessoas, sem preconceitos. Roberto Schiesser, voluntário há uma década, compartilha a emoção de ver como esses encontros despertam lembranças e sentimentos profundos nos assistidos.
Uma história marcante contada por Schiesser envolve Maria Pia, sua cadela, e um paciente que se encantou pela raça. O paciente, ao sair do hospital, desejava ter um cão igual, e chegou a pedir o contato de criadores. Infelizmente, ele faleceu logo após a visita, mas sua filha relatou que a última foto em que ele aparecia sorrindo foi ao lado de Maria Pia, agradecendo imensamente pelo momento de felicidade proporcionado pelos voluntários e seus animais.
As informações foram reunidas a partir de relatos de voluntários e profissionais de saúde, além de dados sobre Atividades Assistidas por Animais (AAA) divulgados por associações como a Terapia Cão Carinho, Inataa e Patas Therapeutas, com base em pesquisas científicas e diretrizes de órgãos como a IAHAIO.
