A busca pela individualidade em relacionamentos duradouros
Em um mundo onde a ideia de um casal inseparável é frequentemente idealizada, a prática de viajar sozinho, mesmo estando em um relacionamento sério, tem ganhado força e gerado debates. Para muitos, a separação temporária pode ser um caminho para fortalecer os laços, enquanto outros a veem como um prenúncio de problemas. Especialistas em terapia de casais, no entanto, sugerem que essa dinâmica, quando bem conduzida, pode ser extremamente benéfica.
A influenciadora de viagens Katie Williams, 36, estabeleceu antes de casar que manteria sua rotina de viagens solo. Ela acredita que preservar a individualidade dentro da relação é crucial para sua saúde. “Muita gente comenta: ‘Não acredito que você vai sem o marido!’ porque vê como um sinal de que algo vai mal”, relata. No entanto, Williams defende que fazer o que ama e manter a autonomia pode, na verdade, impulsionar o relacionamento. Com mais de 40 viagens realizadas sozinha em oito anos de casamento, ela exemplifica essa perspectiva.
O fenômeno da viagem solo é amplamente celebrado nas redes sociais, com milhões de visualizações na hashtag #solotravel no TikTok. Contudo, essa prática em relacionamentos sérios provoca reações diversas, desde preocupações no Reddit até questionamentos sobre culpa e dependência. Segundo terapeutas, a viagem solo não é intrinsecamente boa ou ruim, mas sim um reflexo do estado atual do relacionamento.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo The New York Times.
O Equilíbrio entre Autonomia e Dependência
A psicóloga Tracy Dalgleish explica que viajar sozinho mexe com o casal ao forçá-lo a confrontar o delicado equilíbrio entre autonomia e dependência. Ela desmistifica a crença de que casais saudáveis fazem tudo juntos, ressaltando que as necessidades individuais variam. Alguns parceiros naturalmente buscam mais independência e liberdade para tomar decisões, enquanto outros preferem uma conexão mais constante.
Para casais que consideram essa possibilidade, o terapeuta Justin Pere recomenda uma conversa aberta sobre o que esse tempo separado pode oferecer. Ele sugere pensar em momentos de silêncio, a chance de se dedicar a hobbies que o outro não compartilha, ou simplesmente o espaço para recarregar as energias. Pere alerta que a intenção de viajar sozinho pode ser mal interpretada como rejeição, sendo essencial investigar o significado por trás desse desejo em vez de assumir conotações negativas.
Dalgleish acrescenta que, para evitar ressentimentos, é importante considerar o tempo de qualidade que o casal já passa junto. Se esse tempo é escasso, a ideia de uma viagem solo pode gerar mais incômodo. Pensar em outras formas de priorizar a relação pode ser um caminho para mitigar preocupações.
Redescobrindo a Si Mesmo e ao Outro
Alli Hill, 39, compartilha sua experiência de tirar um fim de semana anual para visitar a mãe, deixando marido e filhos em casa. Como escritora e considerada o “elo de união da família”, esses momentos são raros para se desconectar das responsabilidades. Ela incentiva o marido a fazer o mesmo, que agora tira uma semana para pescar com o pai.
Hill argumenta que, enquanto viagens em família exigem concessões, poder fazer o que se deseja de vez em quando é benéfico. Essa pausa ajuda ambos a se reconectarem com suas identidades individuais, a valorizarem o que representam um para o outro e a sentirem saudade, reacendendo a chama do relacionamento.
A Energia do Namoro e os Cuidados Necessários
Lisa Marie Bobby, terapeuta matrimonial e familiar, é uma forte defensora das viagens separadas. Ela afirma que essa prática é extremamente saudável e pode ajudar casais a aceitar suas diferenças e a reviver a novidade. O retorno de uma aventura traz um novo entusiasmo, criando a oportunidade de redescobrir o parceiro e resgatar a “energia do namoro” que muitas vezes se esvai com o tempo.
Bobby, contudo, pondera que a crítica à viagem solo não é infundada. Em situações de quebra de confiança, como histórico de infidelidade, a prática pode agravar problemas existentes. Nesses casos, ela não recomenda a proibição total, mas sim uma gestão cuidadosa, que pode incluir acordos como rastreamento de localização ou envio de vídeos para tranquilizar o parceiro que ficou em casa.
Mesmo em relacionamentos felizes e estáveis, Justin Pere alerta para a linha tênue entre independência saudável e distanciamento emocional. Se um dos parceiros começa a sentir alívio por estar longe, isso pode ser um indicativo de que a relação está se afastando emocionalmente, exigindo atenção e diálogo para reverter essa tendência.
