Em meio à exuberante paisagem do monte Palgongsan, na Coreia do Sul, um templo budista com mais de mil anos de história se tornou um palco inusitado para a busca do amor e a tentativa de reverter uma crise demográfica nacional. O templo Donghwasa, conhecido por seu legado de monges guerreiros que defenderam o país, agora sedia retiros de 30 horas focados em unir jovens solteiros com um objetivo singular: encontrar parceiros e, eventualmente, ter filhos.
A iniciativa, que parte de uma preocupação com a baixa taxa de natalidade na Coreia do Sul, reflete um esforço conjunto entre instituições religiosas e o governo para combater o declínio populacional. Yoo Cheol-ju, um dos organizadores do retiro, explica que os budistas sempre estiveram na vanguarda em momentos difíceis para o país. Desta vez, a ameaça não vem de invasões estrangeiras, mas sim de uma crise nacional: a baixa taxa de fecundidade.
A Coreia do Sul enfrenta um dos índices de natalidade mais baixos do mundo. Em 2023, a taxa de fecundidade total atingiu um mínimo histórico de 0,72 filhos por mulher, muito aquém do nível de reposição populacional de 2,1. Fatores como o alto custo de vida, a dificuldade em conciliar carreira e família, e a diminuição das interações sociais contribuem para que muitos jovens tenham dificuldade em encontrar parceiros e se casar.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News.
Uma agenda intensa para quebrar o gelo
Os retiros no templo Donghwasa reúnem dezenas de jovens que passaram por um rigoroso processo seletivo, incluindo questionários e vídeos, para avaliar sua seriedade em relação ao casamento e à paternidade. Kim Ah-kyung, de 28 anos, conhecida pelo nome budista Sunhyeji, é uma das participantes. Ela relata a dificuldade em conhecer pessoas fora do círculo de trabalho, onde a maioria dos colegas é mais velha.
A dinâmica dos encontros é intensa e busca criar um ambiente propício para a interação. Desde o momento da chegada, os homens são encorajados a demonstrar cavalheirismo, ajudando com a bagagem das mulheres. Atividades como apresentações pessoais, entrega de flores simbólicas e conversas individuais visam facilitar a conexão. O dia inclui desde passeios pelos arredores do templo até momentos mais descontraídos como um concurso de talentos, onde os participantes exibem suas habilidades em dança, canto ou idiomas.
Apesar da atmosfera festiva, a pressão para formar casais é palpável. Um monge ancião encerra o dia com um discurso inflamado sobre o dever de procriar, seguido pelo hino nacional, que muitos murmuram com pouca disposição, mais focados em seus destinos amorosos. As mulheres escolhem os homens com quem desejam jantar, e as rejeições, como a de Enyo, de 30 anos, que não foi escolhido por nenhuma mulher, tornam-se visíveis.
Esforços governamentais e a esperança de uma virada
Paralelamente a iniciativas como a do templo Donghwasa, o governo sul-coreano tem investido bilhões de dólares em programas de incentivo à natalidade desde 2006, incluindo licenças parentais estendidas, bônus em dinheiro e subsídios habitacionais para recém-casados. No entanto, os índices de natalidade continuaram a cair por anos.
Recentemente, houve uma ligeira recuperação nos números. Em 2024, a expectativa é que as mulheres tenham, em média, 1,0 filho, um aumento em relação aos anos anteriores. Especialistas apontam que a postergação de casamentos e nascimentos devido à pandemia, somada à entrada de uma geração numerosa na idade de ter filhos, podem ter contribuído para essa retomada. Contudo, uma mudança de postura também parece estar em curso, com um aumento de quase 10% em pessoas solteiras que se mostram favoráveis a casar e ter filhos, segundo pesquisa de março.
O retiro no templo Donghwasa terminou com a formação de oito casais, incluindo membros da equipe de organização. Embora nem todos tenham encontrado um parceiro, muitos saíram com novas amizades e uma renovada autoconfiança. Enyo, apesar da decepção inicial, expressou o desejo de retornar, enquanto Sunhyeji celebrou as novas amizades e a sensação de ter voltado a ser adolescente, livre para tomar decisões corajosas. Os homens solteiros também planejam manter contato, agora fora do ambiente monástico, com a promessa de encontros regados a álcool e carne.
A experiência no templo budista, com sua mistura de espiritualidade, atividades sociais e um toque de desespero patriótico, demonstra a complexidade dos desafios demográficos da Coreia do Sul e as diversas estratégias adotadas para tentar reverter a tendência.
