O que começou como um post de influenciadora virou um debate sobre os limites entre moda e saúde. A soroterapia, popularizada como um elixir para vitalidade, imunidade e beleza, ganha contornos de ciência questionável e riscos à saúde quando aplicada sem critério médico.
A recente declaração da influenciadora Virginia Fonseca sobre seus supostos benefícios após uma sessão de soroterapia reacendeu um debate antigo e crescente: a comercialização de infusões intravenosas como solução para bem-estar, longevidade e estética. Clínicas e consultórios por todo o Brasil oferecem os chamados “coquetéis do bem-estar”, prometendo mais disposição, fortalecimento da imunidade, retardo do envelhecimento, auxílio no emagrecimento e melhora de performance física. No entanto, especialistas alertam que a maioria dessas indicações carece de embasamento científico e pode expor os pacientes a perigos desnecessários.
A terapia nutricional endovenosa, ou soroterapia, consiste na administração direta de líquidos contendo vitaminas, minerais, aminoácidos, antioxidantes ou eletrólitos na corrente sanguínea. Embora a infusão intravenosa seja uma ferramenta médica consolidada e indispensável em cenários como reposição de fluidos, nutrientes ou administração de medicamentos para pacientes com dificuldades de absorção oral, o problema surge quando essa prática é desvinculada de indicações médicas claras e transformada em um produto de consumo estético e de bem-estar.
As informações foram reunidas a partir de declarações de endocrinologistas, nutrógos e comunicados de Conselhos Regionais de Medicina.
Promessas sem comprovação científica
Para indivíduos saudáveis, com uma dieta equilibrada e sem deficiências nutricionais diagnosticadas, os benefícios da soroterapia são, na melhor das hipóteses, questionáveis. Especialistas são unânimes em afirmar que o organismo humano possui mecanismos eficientes de absorção de nutrientes pela via oral. O excesso de vitaminas administrado diretamente na veia, especialmente as hidrossolúveis como a vitamina C e as do complexo B, tende a ser simplesmente eliminado pela urina, sem gerar benefícios adicionais.
“Grande parte dessas alegações é baseada em relatos pessoais, percepção subjetiva de bem-estar e estratégias de marketing, e não em ensaios clínicos robustos e bem controlados”, explica Lizanka Marinheiro, endocrinologista do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF/Fiocruz). Ela acrescenta que a melhora relatada por alguns pacientes pode estar associada à hidratação, ao repouso durante o procedimento, ao efeito placebo ou à remissão natural de sintomas inespecíficos como o cansaço.
Dhianah Santini, endocrinologista e professora do Instituto de Educação Médica, reforça a falta de evidências: “Para pessoas que são saudáveis, que não apresentam nenhuma deficiência nutricional comprovada ou doença que prejudique a absorção de nutrientes, não existem evidências científicas de boa qualidade de que infusões de vitaminas e aminoácidos aumentam a imunidade, melhorem energia, promovam o rejuvenescimento, acelerem o metabolismo ou façam a suposta desintoxicação que o pessoal vem referindo”.
Quando a soroterapia é realmente indicada?
Existem, contudo, situações médicas específicas onde a administração intravenosa de nutrientes é fundamental. Pacientes com síndromes de má absorção intestinal, indivíduos submetidos à cirurgia bariátrica, pessoas com desnutrição grave ou portadoras de certas doenças crônicas podem necessitar de reposição por via venosa. Deficiências vitamínicas severas também exigem tratamento específico.
Sandra Fernandes, nutrógola da Kora Saúde, detalha que essas indicações incluem quadros de desidratação importante, problemas de absorção intestinal, vômitos persistentes e, em geral, cenários hospitalares onde a via oral não é viável. A reposição de ferro, por exemplo, pode ser feita por via venosa quando os comprimidos convencionais não são eficazes ou causam mal-estar. “Mas essa indicação precisa sempre de uma avaliação médica detalhada”, ressalta.
Mesmo nestes casos clinicamente estabelecidos, a composição, a dose, a velocidade de infusão e a duração do tratamento devem ser rigorosamente definidas com base no diagnóstico, exames laboratoriais, função renal e hepática, medicamentos em uso e características individuais do paciente.
Os riscos ocultos por trás da agulha
Apesar de frequentemente apresentada como um procedimento simples e inofensivo, a soroterapia carrega riscos inerentes a qualquer infusão intravenosa. A quebra da barreira natural da pele pode levar a complicações como infecções, flebite (inflamação da veia), formação de hematomas, dor local e reações alérgicas.
Adicionalmente, podem ocorrer efeitos sistêmicos como náuseas, tontura, alterações na pressão arterial e no ritmo cardíaco, distúrbios eletrolíticos (sódio, potássio, cálcio, magnésio) e glicose, além de potencial sobrecarga ou lesão renal e hepática. A interação entre as substâncias infundidas e medicamentos que o paciente já utilize também representa um risco.
Um relato exemplifica esses perigos: Soraia Dias, 54 anos, precisou de atendimento de emergência após uma sessão de soroterapia oferecida em um evento com a promessa de melhorar seu desempenho em uma palestra. Minutos após a infusão, ela começou a sentir tontura intensa e a sensação de desmaio, necessitando de observação médica e hidratação intensiva. “Uma concentração mais alta não significa necessariamente um benefício clínico maior. O organismo possui mecanismos de regulação e, no caso de várias vitaminas hidrossolúveis, elimina pela urina aquilo de que não necessita. Em outros casos, especialmente com doses elevadas ou substâncias que se acumulam, pode ocorrer toxicidade”, adverte Marinheiro.
Alerta de órgãos reguladores
Diante da crescente popularidade e das promessas muitas vezes infundadas, órgãos como o Conselho Regional de Medicina do Estado de Goiás (Cremego) emitiram alertas sobre os riscos da soroterapia com finalidades estéticas ou de performance. O Cremego destaca que esse mercado é impulsionado por falsas promessas e influenciadores, e que a terapia endovenosa com esses objetivos carece de evidências científicas.
Uma nota do Cremego ressalta que a indicação de soroterapia com promessas de rejuvenescimento, perda de peso, ganho de massa muscular, combate à queda de cabelo e aumento da vitalidade não possui respaldo científico. Desde 2024, o conselho tem alertado sobre os riscos, inclusive fatais, do uso desnecessário da soroterapia, prática já questionada por diversas sociedades médicas e condenada pela Resolução CFM nº 2004/2012.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD) também já havia se posicionado publicamente, alertando para a falta de segurança e eficácia da soroterapia. Em nota, a SBD afirmou que esses métodos não possuem evidências clínico-científicas consistentes que comprovem sua segurança e eficácia, e que a soroterapia não faz parte do rol de procedimentos médicos reconhecidos para fins dermatológicos, carecendo de estudos científicos na literatura médica.
