Aumento de 20,5% em um ano reflete pressões econômicas e desafios setoriais
O número de empresas brasileiras buscando a recuperação judicial como saída para dificuldades financeiras atingiu 7.726 no primeiro semestre de 2026, um crescimento de 20,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. O levantamento, realizado pela consultoria RGF Associados, aponta que o agronegócio foi o principal motor dessa expansão, com um salto de 66% nos pedidos, mais do que triplicando o índice nacional. O comércio e a indústria de transformação também registraram altas significativas, de 22% e 9%, respectivamente.
Especialistas atribuem o cenário de maior endividamento e busca por reestruturação a uma combinação de fatores macroeconômicos, como juros elevados, crédito mais caro e restrito, e a consequente redução na capacidade de consumo e investimento das famílias e empresas. A esses elementos somam-se problemas intrínsecos a cada setor, que agravam a pressão sobre o caixa das companhias.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela consultoria RGF Associados.
Crise no Campo: Juros, Clima e Preços Pressionam o Agronegócio
O agronegócio se destaca pela expressiva alta de 66% nas recuperações judiciais, respondendo por mais de dois terços dos casos em micro e pequenas empresas e produtores rurais. A proporção de casos no setor, 1,8 por mil empresas ativas, é mais que o dobro da indústria de transformação. Quatro fatores principais explicam essa vulnerabilidade: a queda nos preços das commodities, eventos climáticos adversos, a alta necessidade de capital de giro e o encarecimento do crédito rural.
A cadeia da soja lidera o número de recuperações judiciais no campo, seguida pela pecuária de corte e cana-de-açúcar. A particularidade do produtor rural é que, mesmo em dificuldade, sua terra continua produtiva, o que pode viabilizar a reorganização das dívidas e a continuidade da atividade. No entanto, a crise financeira se estende a fornecedores de insumos, máquinas e serviços. Usinas de açúcar e frigoríficos apresentam índices elevados de recuperação judicial (52,6 e 17,3 casos por mil empresas, respectivamente). Fabricantes de fertilizantes, defensivos e equipamentos agrícolas também sofrem com margens apertadas e o custo elevado do crédito, essencial para financiar estoques e bens de capital como colheitadeiras e tratores. Um exemplo emblemático é a Agrogalaxy, que pediu recuperação judicial em setembro de 2024 com R$ 4,1 bilhões em dívidas, afetada por endividamento, cenário adverso e quebras de safra.
Indústria: Crescimento Moderado, Mas Falências Relevantes
A indústria de transformação registrou um crescimento de 9% em recuperações judiciais, atingindo 1.455 empresas ao final de junho. Embora menor que no agro, o setor enfrenta o alto custo do crédito e dívidas contraídas em períodos de juros mais baixos. A seletividade dos bancos, que exigem mais garantias e cobram spreads elevados, dificulta a renegociação desses passivos. A economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, aponta que o ciclo de flexibilização monetária tem sido gradual e insuficiente para alterar significativamente as condições de financiamento.
A fabricante de brinquedos Estrela protocolou seu plano de recuperação judicial em agosto, em meio a dificuldades financeiras e à mudança nos hábitos de consumo infantil, com o avanço de alternativas digitais. O setor industrial também apresenta uma proporção relevante de falências, com o volume de empresas que chegam à falência sendo mais da metade do número de recuperações judiciais em andamento.
Comércio e Serviços: Realidades Diversas em Cenário Desafiador
O comércio concentra o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial no país, com 1.649 CNPJs ao final do primeiro semestre, um aumento de 22% em 12 meses. Varejistas lutam contra margens apertadas, juros altos e dificuldade em rolar dívidas. O crédito restrito e a perda do poder de compra das famílias também impactam negativamente o consumo. Um dos casos mais recentes é o da Casas Bahia, que pediu recuperação judicial em agosto após registrar um prejuízo de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre, enfrentando desafios com juros elevados, inadimplência e concorrência.
Nos serviços, o cenário é mais heterogêneo. O transporte de cargas responde por três em cada quatro recuperações judiciais do setor, sendo particularmente sensível aos preços do diesel, fretes e taxas de juros. Em contrapartida, o setor de saúde apresentou uma redução nos pedidos, caindo de 128 para 123 CNPJs no segundo trimestre de 2026.
É importante notar que casos graves de grandes empresas podem não aparecer nas estatísticas de recuperação judicial, pois algumas optam por acordos extrajudiciais para renegociar dívidas bilionárias. Empresas como Raízen, GPA e Oncoclínicas reorganizaram cerca de R$ 75 bilhões por meio dessa via, demonstrando que a demanda estrutural crescente não protege contra o endividamento excessivo e a gestão de caixa apertada.
