A linha tênue entre o lazer e a compulsão no mundo das apostas
A crescente popularidade das apostas online tem levantado um debate importante sobre os limites entre o jogo recreativo e a dependência, conhecida clinicamente como transtorno do jogo. Especialistas psiquiatras ressaltam que nem todo apostador frequente é um dependente, mas a distinção requer critérios técnicos para evitar confusões, especialmente em contextos legais e de saúde. O Tribunal Superior do Trabalho (TST), por exemplo, avalia se as regras aplicadas ao alcoolismo, como a presunção de demissão discriminatória em casos de doença, poderiam ser estendidas à ludopatia.
Segundo o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, que atua no Ambulatório de Tratamento de Dependências de Comportamentos da Unifesp, existe um perfil intermediário, o “investidor iludido”. Essas pessoas acreditam ter descoberto um método infalível para ganhar nas apostas, o que pode levar a problemas e até a critérios para um diagnóstico de transtorno do jogo, sem que necessariamente configurem dependência.
A comparação com o alcoolismo é frequente, pois o cérebro pode desenvolver respostas dependentes semelhantes sem a ingestão de substâncias. “A dependência é uma relação, não é um efeito que uma droga causa em você”, explica Vieira Júnior. No entanto, as duas condições frequentemente coexistem. A psiquiatra Livia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês, aponta que três em cada quatro jogadores patológicos possuem outro diagnóstico psiquiátrico associado, sendo o álcool e o tabagismo a “tríade clássica do jogador”. O abuso de álcool, muitas vezes, surge como uma forma de lidar com a angústia das perdas após sessões de jogo.
Os nove critérios diagnósticos da ludopatia
O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), em sua edição de 2013, reclassificou o transtorno do jogo da categoria de controle de impulsos para a de dependências, devido a semelhanças fenomenológicas e biológicas com transtornos por uso de substâncias. O diagnóstico é fechado quando um indivíduo apresenta quatro ou mais dos nove critérios listados, que descrevem um comportamento problemático persistente e recorrente que causa sofrimento ou comprometimento significativo:
- Necessidade de apostar quantias de dinheiro cada vez maiores para atingir a excitação desejada.
- Inquietação ou irritabilidade ao tentar reduzir ou interromper o hábito de jogar.
- Esforços repetidos e frustrados para controlar, reduzir ou interromper o hábito.
- Preocupação frequente com o jogo, como planejar a próxima aposta ou modos de obter dinheiro para jogar.
- Frequente envolvimento com o jogo em momentos de angústia.
- Retorno ao jogo em dias subsequentes para tentar recuperar perdas.
- Mentiras para esconder a extensão do envolvimento com o jogo.
- Prejuízos pessoais, sociais e profissionais devido ao jogo (perda de relacionamentos, emprego, oportunidades educacionais).
- Dependência de outras pessoas para obter dinheiro e saldar dívidas de jogo.
Perda de liberdade e empobrecimento existencial: os pilares da dependência
Vieira Júnior sintetiza a dependência em três dimensões: a sensação de perda de liberdade, onde a compulsão sobrepõe a percepção do prejuízo; a disfuncionalidade, marcada por danos concretos, especialmente financeiros; e o empobrecimento existencial, onde a vida do indivíduo se restringe progressivamente ao ato de apostar, com abandono de outras atividades e relações.
A dificuldade diagnóstica se acentua em casos limítrofes, especialmente na Justiça do Trabalho, onde é preciso diferenciar indisciplina de patologia. “Os extremos são sempre fáceis de diagnosticar. Aquilo no meio do caminho é que vai dar mais trabalho para diagnosticar”, pondera o psiquiatra. Nesses cenários, a avaliação aprofundada de peritos judiciais torna-se crucial.
Aumento de atendimentos e o impacto social das apostas
Os números refletem a crescente preocupação com o tema. O Ministério da Saúde registrou 6.157 atendimentos presenciais no SUS relacionados a apostas em 2025, um aumento expressivo em relação aos 3.490 de 2024. Pesquisas como a TIC Domicílios indicam que cerca de 30 milhões de brasileiros já apostaram online, com a prática sendo mais comum entre homens. A proximidade farmacológica, com medicamentos como a naltrexona mostrando eficácia em reduzir a fissura por apostas, e a identificação de circuitos neurais compartilhados reforçam a necessidade de abordagens clínicas e legais mais precisas para lidar com a complexidade do transtorno do jogo.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, da Unifesp, e pela psiquiatra Livia Beraldo, do Hospital Sírio-Libanês, além de informações sobre a discussão no TST e dados do Ministério da Saúde e do Cetic.br.
