A preferência por usar um lado do corpo, característica observada em cerca de 90% dos humanos como destros, tem raízes muito mais profundas do que se imaginava. Uma nova análise de fósseis de Spriggina, um organismo marinho extinto que viveu há mais de 550 milhões de anos no sul da Austrália, aponta para a existência de lateralidade comportamental em animais ainda na era Ediacarana, um período geológico anterior à explosão Cambriana. A descoberta, publicada na revista Scientific Reports, sugere que essa característica fundamental da vida complexa é uma herança ancestral.
A equipe de pesquisadores, liderada pelo paleontólogo Scott Evans, do Museu Americano de História Natural, examinou mais de cem espécimes de Spriggina preservados em lajes de rocha no Parque Nacional Nilpena Ediacara. Esses fósseis, que se assemelham a sanguessugas em miniatura e eram conhecidos por sua simetria segmentada e uma extremidade em forma de elmo, apresentaram uma característica surpreendente: muitos estavam curvados, indicando um movimento preferencial para um dos lados.
Através de fotografias e varreduras 3D, os cientistas mediram o grau de curvatura dos fósseis. A análise revelou que aproximadamente o dobro de espécimes apresentava curvatura para a direita em comparação com aqueles curvados para a esquerda. Essa assimetria no movimento é interpretada como a evidência mais antiga de lateralidade comportamental em animais, mesmo na ausência de membros definidos.
A lateralidade, ou a preferência por usar um lado do corpo em detrimento do outro, é uma característica onipresente na natureza. Ela se manifesta desde a estrutura molecular do DNA, que gira em hélice para a direita, até o comportamento de animais como camundongos e pererecas, e até mesmo em plantas. Na árvore genealógica humana, a evidência mais antiga conhecida de lateralidade comportamental data de cerca de 1,8 milhão de anos, com um fóssil de Homo habilis mostrando sinais de uso preferencial de uma mão para cutucar os dentes com uma ferramenta de pedra.
Benefícios da especialização corporal
A descoberta da lateralidade em organismos tão antigos como a Spriggina levanta questões sobre seus benefícios evolutivos. Loren Babcock, paleontólogo da Universidade Estadual de Ohio que não participou do estudo, sugere que a especialização de um lado do corpo pode otimizar a tomada de decisões em situações de perigo. “Economiza-se tempo se você não precisa tomar uma decisão sobre qual pé colocar primeiro ou para qual lado virar”, explicou Babcock, referindo-se à fuga de predadores.
A Spriggina habitava o fundo do mar, em um ecossistema primitivo coberto por tapetes microbianos. A forma como seus fósseis foram encontrados, com curvaturas distintas, sugere que eles se contorciam para se mover, de maneira similar a planárias ou nudibrânquios atuais. Embora a influência de correntes marinhas tenha sido considerada, a paleontóloga Lidya Tarhan, da Universidade Yale, descarta essa hipótese, argumentando que as diferentes posições de curvatura dos fósseis indicam um movimento ativo e intencional do organismo.
A lateralidade da Spriggina, segundo Evans, conecta esses organismos primitivos a formas de vida mais complexas, incluindo os humanos. “Especializar um lado do corpo é uma parte realmente benéfica desse plano corporal”, afirmou Evans. “A Spriggina tem uma frente e uma traseira, um lado esquerdo e um direito — o mesmo plano corporal que todos nós temos.” A descoberta reforça a ideia de que a base para comportamentos e estruturas corporais complexas já estava em desenvolvimento nos primórdios da vida multicelular.
