Onda antivacina nas redes sociais gera efeito reverso e fortalece debate pró-imunização, aponta estudo
Onda antivacina nas redes sociais gera efeito reverso e fortalece debate pró-imunização, aponta estudo

Onda antivacina nas redes sociais gera efeito reverso e fortalece debate pró-imunização, aponta estudo

Ataques à vacinação nas redes sociais desencadeiam reação pró-imunização Uma nova onda de ataques às vacinas, majoritariamente promovida por políticos de direita, tem gerado um efeito inesperado nas redes sociais: em vez de diminuir a confiança na imunização, essas campanhas resultaram em um aumento significativo de discussões e manifestações favoráveis à vacinação. É o que […]

Resumo

Ataques à vacinação nas redes sociais desencadeiam reação pró-imunização

Uma nova onda de ataques às vacinas, majoritariamente promovida por políticos de direita, tem gerado um efeito inesperado nas redes sociais: em vez de diminuir a confiança na imunização, essas campanhas resultaram em um aumento significativo de discussões e manifestações favoráveis à vacinação. É o que revela um levantamento da plataforma de monitoramento digital Torabit, que analisou 93.755 publicações únicas sobre o tema em plataformas como X (antigo Twitter), Facebook, Instagram e Bluesky, entre os dias 3 e 10 de agosto.

Os dados indicam que, no período analisado, 54,4% das publicações foram classificadas como pró-vacina, enquanto apenas 28,3% apresentaram um viés antivacina. Considerando apenas as postagens que expressaram uma posição clara, a proporção favorável à vacinação sobe para 65,8%, contra 34,2% de manifestações contrárias. As informações foram compiladas pela BBC News Brasil.

Este cenário de intensificação do debate sobre vacinas no Brasil ocorre em um contexto de repercussão de declarações de políticos brasileiros, um surto de sarampo em São Paulo – que concentra 23 dos 24 casos registrados no país – e o debate em torno da imunização nos Estados Unidos.

Contexto internacional e medidas nos EUA moldam o debate

Nos Estados Unidos, a discussão sobre vacinas ganhou destaque com a audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado, em 29 de julho. Fauci, figura central na resposta à pandemia de Covid-19, foi convocado para depor em uma investigação sobre a origem do coronavírus e a atuação governamental durante a crise sanitária. Durante a audiência, Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege contra a autoincriminação, em mais de cem ocasiões, reacendendo críticas da direita americana.

Paralelamente, o ex-presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva que determina a revisão das recomendações federais de vacinação infantil. A medida reduz de 18 para 11 o número de doenças para as quais a vacinação é universalmente recomendada, com outras vacinas sendo direcionadas a grupos específicos ou decididas em conjunto por médicos e pacientes. A proposta inclui a separação da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três aplicações distintas, sob a justificativa de alinhar o calendário americano ao de outros países desenvolvidos. Especialistas e organizações de saúde pública criticaram a medida, apontando a falta de novas evidências que a justifiquem.

Picos de desinformação e reversão nas redes

O levantamento da Torabit aponta que os dois primeiros dias da análise concentraram mais da metade (52,9%) de todas as publicações registradas. A movimentação inicial foi impulsionada pela audiência de Fauci nos EUA e por um vídeo do deputado brasileiro Nikolas Ferreira, publicado em 2 de agosto, no qual ele revisitava alegações sobre a pandemia de Covid-19. A partir da segunda metade do período, o debate foi reaquecido pelo surto de sarampo em São Paulo e por um vídeo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, divulgado em 7 de agosto.

No vídeo, Eduardo Bolsonaro defendia a liberdade dos pais para decidir sobre a vacinação dos filhos, utilizando como exemplo uma declaração de responsabilidade pela decisão de não vacinar a filha, assinada no Texas. A análise da Torabit mostrou que a proporção de publicações pró-vacina e antivacina variou significativamente ao longo dos oito dias. No dia 3 de agosto, o placar era quase de empate: 41,2% pró-vacina e 41,1% antivacina. No dia seguinte, a vantagem passou para o lado pró-imunização (56,1% contra 32,8%), tendência que se acentuou nos dias subsequentes. Uma queda temporária ocorreu na sexta-feira (7), coincidindo com a repercussão do vídeo de Eduardo Bolsonaro, mas a tendência favorável à vacinação se restabeleceu com força no final do período, atingindo 82,1% das publicações no último dia de análise.

A plataforma identificou um padrão recorrente: após ondas de conteúdo antivacina, há um aumento imediato na discussão, seguido por uma reversão da tendência em favor da vacinação, com duração aproximada de 48 horas. Embora os dados não estabeleçam uma relação causal direta entre os ataques e o aumento das manifestações pró-vacina, é inegável que o surto de sarampo e o início da campanha nacional de multivacinação também contribuíram para intensificar o debate sobre imunização.

Diferentes repercussões para vídeos de Nikolas e Eduardo Bolsonaro

A análise da Torabit permitiu diferenciar a repercussão dos vídeos de Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro. O conteúdo de Nikolas Ferreira, publicado em 2 de agosto, representou 3% das menções sobre vacinas no período, com pico de 6,5% em 3 de agosto. Curiosamente, a maioria das publicações que mencionavam o deputado era favorável à vacinação (87,9% pró-vacina contra 5,8% antivacina), e a repercussão diminuiu rapidamente.

Já o vídeo de Eduardo Bolsonaro teve uma repercussão maior e mais duradoura, representando 6,4% de todas as menções sobre vacinas. Publicado em 7 de agosto, atingiu seu ápice no fim de semana, aparecendo em 26,2% das publicações sobre vacinas em cada dia. Nesse caso, a proporção de conteúdo antivacina entre as citações a Eduardo foi maior (31,6% antivacina contra 60,9% pró-vacina), mas as manifestações favoráveis à imunização ainda predominaram.

As reações aos vídeos também apresentaram diferenças. Enquanto as publicações mais compartilhadas sobre Nikolas contestavam suas afirmações sobre a pandemia, a discussão em torno de Eduardo Bolsonaro incluiu críticas sobre a responsabilização e alegações de contradições na família Bolsonaro, como a de que alguns de seus membros seriam vacinados enquanto promovem campanhas contrárias à imunização.

Sarampo e gênero no debate da vacinação

O surto de sarampo em São Paulo desempenhou um papel crucial na conversa online sobre vacinas. As menções ao surto corresponderam a 10,6% de todas as publicações analisadas, com participação crescente ao longo da semana, atingindo 15,7% das menções sobre vacinas no sábado. Entre essas publicações, 72,7% eram pró-vacina, 24,1% informativas e apenas 2,1% antivacina.

O levantamento também identificou diferenças de gênero na discussão. Entre os perfis femininos com posição definida, 67% das menções eram pró-vacina, enquanto entre os perfis masculinos, essa proporção era de 56%. Esses dados corroboram resultados de levantamentos anteriores que já indicavam uma maior adesão e defesa da vacinação por parte do público feminino.

A análise de sentimento das publicações revelou que, embora 42,3% das menções tivessem tom negativo e 27,2% positivo, o tom negativo não se traduz necessariamente em oposição à vacina. A Torabit explica que 62% das publicações classificadas como negativas eram, na verdade, pró-vacina, utilizando linguagem negativa para criticar políticos ou declarações antivacina.

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