A história que virou mito: vibradores e a histeria feminina
Uma narrativa amplamente difundida sugere que, na Inglaterra vitoriana de 1880, médicos tratavam pacientes diagnosticadas com histeria – um termo vago para uma série de mal-estares femininos – através da estimulação manual até o orgasmo. Acredita-se que a invenção do vibrador elétrico no início do século 20 teria surgido como uma solução mais eficiente para os profissionais de saúde, poupando-os do trabalho repetitivo. Essa história, com seus elementos de escândalo, ironia e repressão, inspirou livros, peças de teatro e até filmes, como “Histeria”. No entanto, essa versão popularizada está longe de ser a realidade, segundo os historiadores Hallie Lieberman e Eric Schatzberg.
A base dessa crença popular foi solidificada pelo livro “The Technology of Orgasm” (1999), de Rachel Maines. Contudo, a historiadora Hallie Lieberman, ao revisar as fontes citadas na obra para um trabalho acadêmico, notou inconsistências significativas. Suas investigações, que se estenderam por nove anos e contaram com a colaboração de Eric Schatzberg, professor de História da Tecnologia, revelaram que as evidências históricas não sustentam a tese de que os vibradores foram criados para tratar a histeria através do orgasmo feminino.
As informações foram reunidas a partir de entrevistas e pesquisas publicadas por Hallie Lieberman e Eric Schatzberg, além de referências a trabalhos de Rachel Maines, Fabíola Rohden, Helen O’Connell e estudos sobre o Conselho Federal de Medicina.
Desmistificando o passado: o uso real dos primeiros vibradores
A pesquisa minuciosa de Lieberman e Schatzberg, que envolveu a revisão de textos médicos em inglês e francês, além de fontes em grego e latim com auxílio de tradutores, apontou para outros usos dos dispositivos elétricos da época. Em vez de serem empregados para induzir orgasmos em mulheres histéricas, esses aparelhos eram utilizados em tratamentos para surdez, fraturas e para realizar massagens terapêuticas em diversas partes do corpo, como coluna, cabeça, quadris e pescoço.
Ademais, ao contrário da hipótese de que a medicina da época desconhecia a função sexual do clitóris, os historiadores encontraram provas de que o conhecimento sobre o órgão já existia. A ideia de que os médicos não sabiam o que estavam fazendo ao estimular pacientes é vista como uma projeção anacrônica. A dificuldade em publicar essas descobertas foi considerável, com doze revistas recusando o artigo dos pesquisadores, que só foi publicado em 2018 no “Journal of Positive Sexuality”, tornando-se o mais lido da história da publicação.
A força do mito e a desvalorização do prazer feminino
A persistência do mito sobre a histeria e os vibradores é atribuída à sua natureza cativante e à sua capacidade de reforçar estereótipos. “É uma história boa demais para as pessoas criticarem. Tem o apelo pornográfico dos médicos, o mito de que as mulheres não entendem seus corpos e a ideia de homens sendo bizarros. Desmentir isso não é tão sexy ou divertido”, explica Schatzberg. Essa narrativa, para os pesquisadores, funciona como uma “fantasia erótica” que perpetua a ideia de que as mulheres são passivas em relação ao próprio prazer, necessitando de intervenção externa para alcançá-lo.
A história da sexualidade feminina, segundo Lieberman, é frequentemente contada sob a ótica masculina, com foco em como o homem leva a mulher ao orgasmo, negligenciando a agência feminina na descoberta do próprio prazer. Essa tendência se reflete na ciência, que demorou séculos para mapear a anatomia do prazer feminino. O primeiro mapeamento tridimensional dos nervos do clitóris, por exemplo, foi divulgado apenas neste ano, quase três décadas após o feito para o pênis. A urologista Helen O’Connell só publicou o primeiro mapeamento completo do clitóris em 1998, após constatar a superficialidade ou ausência do tema em livros de medicina.
Raízes históricas da desvalorização e o cenário atual
A antropóloga Fabíola Rohden aponta que, até por volta de 1800, o prazer feminino era considerado importante para a concepção, com manuais orientando maridos sobre como estimular suas esposas. Com a descoberta de que o orgasmo não era essencial para a gravidez, o prazer da mulher perdeu prioridade e passou a ser visto como um sintoma a ser controlado, levando à sua “renegação”. Pesquisas em arquivos brasileiros, como teses da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro entre 1833 e 1940, não encontraram menções ao uso de vibradores para tratar histeria.
A desvalorização do prazer feminino também é observada em análises contemporâneas. Uma pesquisa sobre o discurso do Conselho Federal de Medicina (CFM) entre 2003 e 2023 não encontrou menções ao prazer ou orgasmo feminino, indicando que a mulher ainda é vista primariamente em seu papel reprodutivo. “A mulher ainda está completamente atrelada ao papel reprodutivo. Não tem quase menção nenhuma à sexualidade no sentido de prazer”, afirma Carolina Aita Flores, doutoranda em Saúde Coletiva.
Lieberman considera que a persistência desse foco reprodutivo no discurso médico atual perpetua o problema central do mito do vibrador, dificultando a discussão sobre autoconhecimento e prazer feminino. A autora original do livro “The Technology of Orgasm”, Rachel Maines, reconhece que os historiadores utilizam “essencialmente os mesmos dados” que ela, mas os “interpretam de forma diferente”, considerando a “controvérsia acadêmica saudável”. Para Lieberman, a verdadeira história feminista reside nas mulheres que, ao longo da história, descobriram e buscaram o próprio prazer, como exemplificado pelas oficinas de Betty Dodson nos anos 1960, que promoviam o uso do vibrador para autoconhecimento.
