A virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026 foi impulsionada por uma combinação de fatores que selaram o quarto mandato presidencial do petista. A redução da abstenção, a diminuição de votos brancos e nulos, e um crescimento expressivo em estados considerados cruciais para o resultado formaram a base da vitória.
Lula obteve um expressivo avanço de 10,4 milhões de votos em relação ao primeiro turno. Embora Flávio Bolsonaro também tenha crescido, seu aumento foi menor, com 3,7 milhões de votos adicionais. No total, o presidente reeleito abriu uma vantagem de 4,4 milhões de votos no segundo turno.
Uma das principais preocupações da campanha petista era mobilizar eleitores que não compareceram às urnas no primeiro turno. A estratégia, liderada por figuras como o deputado federal André Janones e seu canal “Exército do Lula” nas redes sociais, surtiu efeito. O resultado foi a menor taxa de abstenção em 20 anos, registrando 19,22%, uma queda em relação aos 21,08% do primeiro turno. Isso representou a adição de 2,9 milhões de votos apenas de eleitores que haviam se ausentado anteriormente.
“Houve a mudança de comunicação dentro da campanha do Lula. E aí o Janones tem um papel fundamental nisso. Goste ou não, ele conseguiu mobilizar as redes de uma forma bastante competente e isso ajudou na recuperação do terreno da esquerda nas redes sociais que havia perdido para a direita”, analisa o cientista político Leandro Consentino.
Redução de votos nulos e brancos e transferência de eleitores
Além do aumento na participação, houve uma diminuição significativa nos votos brancos e nulos, contrastando com o cenário de 2022. Foram registrados 870,3 mil votos brancos a menos e 950,9 mil eleitores a menos anularam seus votos em comparação com o primeiro turno. Esses eleitores, somados aos que não compareceram anteriormente, representaram um acréscimo de 4,8 milhões de votos ao total. Embora nem todos tenham migrado para Lula, esse volume superou os 3,7 milhões de votos a mais obtidos por Flávio Bolsonaro.
A transferência de votos de candidatos derrotados no primeiro turno, que somados haviam obtido 9,3 milhões de votos, não beneficiou exclusivamente o candidato bolsonarista, como se esperava, dado o alinhamento político. Ex-candidatos como Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema declararam apoio a Bolsonaro, mas o volume de votos transferidos não foi suficiente para cobrir o avanço de Lula.
“Politicamente, o resultado indica que Lula conseguiu ampliar sua base eleitoral para além do eleitorado tradicional do PT”, aponta o cientista político Leandro Gabriati. “O segundo turno não foi apenas uma disputa entre governo e oposição, mas também uma escolha marcada pela rejeição. Parte dos eleitores que rejeitaram Lula no primeiro turno não necessariamente estava disposta a apoiar Flávio Bolsonaro no segundo”, acrescenta.
Crescimento em todos os estados e virada em Minas Gerais
A máxima histórica de que quem vence em Minas Gerais ganha a eleição presidencial se confirmou em 2026, com a virada de Lula no estado. No primeiro turno, o petista venceu em 12 estados, e no segundo, manteve essas vitórias e adicionou Minas Gerais. Flávio Bolsonaro venceu em 13 estados e no Distrito Federal.
A quantidade de estados onde cada candidato obteve maioria não foi o fator decisivo. Lula demonstrou um crescimento superior ao de seu oponente em todas as unidades da federação, inclusive em estados-chave onde teve desempenho mais fraco no primeiro turno. O maior acréscimo percentual de Lula foi registrado em Goiás, com um avanço de 9,29 pontos percentuais, alcançando 40,35% dos votos.
O crescimento nos maiores colégios eleitorais do país foi particularmente significativo: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais viram Lula avançar 7,94, 7,49 e 7,06 pontos percentuais, respectivamente. Na capital fluminense, ele conseguiu a virada sobre Bolsonaro. Além disso, Lula apresentou um aumento consistente em estados com menor participação da esquerda, como Rio Grande do Sul e Paraná, com avanços de 6,43 e 6,22 pontos percentuais. Até mesmo em Santa Catarina, um estado considerado conservador, o petista cresceu 5,54 pontos percentuais.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e análises de cientistas políticos.
