A vida sob o domínio da dor
A rotina de Carolina Arruda, 30 anos, veterinária de Lavras (MG), é marcada por uma dor tão intensa que a levou a considerar a eutanásia. Diagnosticada em 2013 com neuralgia do trigêmeo, condição conhecida por causar a pior dor do mundo, Carolina enfrenta entre 20 e 30 crises diárias. Sua história ganhou notoriedade em 2024, quando lançou uma vaquinha online para arrecadar fundos para um procedimento na Suíça. Até o momento, foram arrecadados R$ 145.785,10, valor utilizado em diversos tratamentos, já que a profissional está desempregada.
“Se eu pudesse pedir qualquer coisa hoje, seria saúde. Não preciso que a dor vá embora, mas que me deixe viver. Eu queria vida e não sobrevida”, desabafa Carolina. O caso é considerado paliativo desde 2025, e sua rotina inclui ajustes constantes em uma bomba intratecal implantada em seu abdômen, que administra uma combinação de sufentanil e morfina diretamente na região cerebral. Além disso, ela utiliza neuroestimuladores com fios distribuídos pelo corpo e na medula, que emitem impulsos elétricos para tentar interceptar os sinais de dor.
Desde o início da doença, Carolina já passou por mais de cem tratamentos medicamentosos e 11 cirurgias. A informação foi reunida a partir de reportagem publicada em 2024.
Esperanças e barreiras financeiras
Uma das últimas esperanças de Carolina é um medicamento derivado do veneno de um caramujo marinho, o Prialt (ziconotida), cerca de mil vezes mais potente que a morfina. No entanto, o acesso a este analgésico é inviável no Brasil, pois o produto não possui registro comercial e seu custo é proibitivo. Um frasco pode custar entre 30 mil e 50 mil dólares (aproximadamente R$ 160 mil a R$ 268 mil), e seria necessário tomá-lo mensalmente. Carolina precisaria morar fora do país e ter autorização governamental para utilizá-lo em sua bomba intratecal.
A burocracia da eutanásia e a busca por qualidade de vida
A eutanásia na instituição suíça Dignitas permanece como a única opção vislumbrada por Carolina, mas o processo é complexo. A publicidade de seu caso, segundo ela, torna a obtenção de laudos médicos ainda mais difícil. “Preciso de diversos laudos de psicólogos, psiquiatras, neurologistas e especialistas em dor para justificar que a minha decisão foi tomada em sã consciência, de forma racional. Só que nenhum médico quer se comprometer com isso”, relata.
A dor crônica a impede de exercer sua profissão. Carolina explica que o nervo trigêmeo é progressivamente lesionado pela pulsação da artéria cerebral, como um fio elétrico desencapado. Ela descreve o desejo de ter uma vida normal: poder levantar da cama sem dor, marcar compromissos, tomar banho sozinha, comer sem vomitar, ir à praia ou cachoeira com a família, e realizar tarefas cotidianas como escovar os dentes ou lavar o cabelo sem desencadear crises.
Desafios adicionais e engajamento social
Desde 2024, Carolina também convive com a espondilite anquilosante, uma doença autoimune que afeta suas articulações e mobilidade, exigindo o uso de cadeira de rodas ou bengala. Embora tratamentos com imunobiológicos no SUS proporcionem alívio de 70% nos sintomas da espondilite, a combinação das duas condições agrava seu quadro de dores constantes.
Recentemente, Carolina tornou-se alvo de um stalker que a assediava por meio de ligações e mensagens, alegando inveja de seu acesso a opioides. Ela registrou um boletim de ocorrência, e um processo criminal está em andamento. Paralelamente, Carolina lidera a AMTBR (Associação de Neuralgia do Trigêmeo do Brasil), fundada em 2024, que já assiste quase 400 pacientes e conta com mais de 50 voluntários.
O que é a neuralgia do trigêmeo?
A neuralgia do trigêmeo é um distúrbio caracterizado por dores faciais intensas e sensações de choque. O nervo trigêmeo, responsável pela sensibilidade da face, possui três ramificações. A forma bilateral, que afeta ambos os lados do rosto como no caso de Carolina, é rara e de tratamento desafiador.
Apesar das adversidades, Carolina encontra força em sua família e na consciência de sua resiliência. Ela busca viver um dia de cada vez, valorizando o apoio familiar como pilar fundamental para sua sobrevivência. A veterinária também tenta transformar a perspectiva, considerando que talvez tenha sido escolhida para enfrentar essa batalha por possuir a força necessária.