Novos caminhos para a paternidade: homens gays celebram o Dia dos Pais com filhos nos braços
Novos caminhos para a paternidade: homens gays celebram o Dia dos Pais com filhos nos braços

Novos caminhos para a paternidade: homens gays celebram o Dia dos Pais com filhos nos braços

A paternidade gay deixa de ser um sonho distante para se tornar uma realidade celebrada. Para Felipe Barros, 37, e Rafael Amaral, 35, a chegada do pequeno Leo em março deste ano representou a concretização de um sonho que, por muito tempo, pareceu inatingível: o de serem pais. Da mesma forma, o nascimento de Mia, […]

Resumo

A paternidade gay deixa de ser um sonho distante para se tornar uma realidade celebrada.

Para Felipe Barros, 37, e Rafael Amaral, 35, a chegada do pequeno Leo em março deste ano representou a concretização de um sonho que, por muito tempo, pareceu inatingível: o de serem pais. Da mesma forma, o nascimento de Mia, há dez meses, materializou um desejo que para os influenciadores Lucas Rangel, 29, e Lucas Bley, 34, soava distante e até “impensável”. Neste domingo, ambos os casais celebram o primeiro Dia dos Pais com seus filhos, um marco que, para muitos homens gays, foi construído a duras penas contra preconceitos e a ausência de modelos familiares que os representassem.

Durante décadas, a paternidade foi socialmente atrelada ao modelo heterossexual. Crescer como homem gay muitas vezes significava não apenas enfrentar o estigma da sexualidade, mas também a falta de referências visuais de si mesmos no papel de pais. Felipe Barros, ator, roteirista e produtor, chegou a cogitar a possibilidade de reprimir sua orientação sexual e se relacionar com uma mulher para realizar o desejo de ser pai. “Cresci na década de 1990. Esse debate de um homem gay ter filho simplesmente não existia”, relata.

Foi apenas anos mais tarde, aos 23 anos, que Felipe assumiu sua homossexualidade. Três anos depois, conheceu Rafael, engenheiro com quem é casado desde 2019. A ideia de paternidade começou a se tornar mais concreta durante a pandemia. Diferentemente de Felipe, Rafael não se via inicialmente como pai, mas o desejo amadureceu gradualmente dentro da relação. Já Lucas Bley sempre nutriu o sonho da paternidade desde a infância, encarando o processo como algo que aconteceria em algum momento da vida. Lucas Rangel, por sua vez, não tinha o desejo de ser pai ou casar, mas o relacionamento de seis anos com Bley, com quem se casou em 2024, transformou sua perspectiva. “Quando eu me encontrei numa relação em que eu estava feliz e que eu podia também celebrar isso, eu embarquei nesse sonho com ele”, conta.

A busca por caminhos e a transformação social

A psicóloga Natália Aguilar, especialista em parentalidade, explica que, para muitos homens gays, o obstáculo não reside na falta de desejo de ter filhos, mas sim na dificuldade de imaginar e projetar esse futuro para si. “Sem referências concretas, muitos homens gays cresceram sem uma autorização simbólica para projetar o lugar de pai para si”, afirma.

Enquanto para casais heterossexuais a gravidez pode ocorrer de forma mais natural, para casais gays a parentalidade é frequentemente o resultado de um planejamento cuidadoso que envolve decisões médicas, financeiras e emocionais. Os caminhos jurídicos incluem a gestação por substituição (barriga solidária) no Brasil ou no exterior, e a adoção.

No Brasil, o agenciamento comercial de gestantes é proibido. A cessão temporária do útero é permitida sob regras específicas: a gestante deve ter um filho vivo e ser parente de até quarto grau de um dos integrantes do casal. Na ausência de um familiar, é possível recorrer a outra mulher com autorização prévia do Conselho Regional de Medicina (CRM). O processo não pode ter fins comerciais, e a doadora de óvulos deve ser diferente da gestante. O ginecologista Gustavo Teles, membro da SBRA, relata casos em que a irmã de um dos parceiros doou óvulos, o sêmen veio do outro, e a gestação foi realizada por uma amiga do casal.

Houve um aumento na busca por procedimentos de reprodução assistida por casais gays no país, impulsionado por avanços tecnológicos e, principalmente, por normas do Conselho Federal de Medicina (CFM) que garantiram o direito de acesso da comunidade LGBTQIA+ a esses tratamentos. Essa mudança foi precedida por transformações jurídicas e culturais mais amplas, como o reconhecimento das uniões homoafetivas como entidades familiares pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2011, segundo a especialista em direito de família Amanda Helito. A visibilidade de famílias como a do ator Paulo Gustavo e seu marido, Thales Bretas, também contribuiu para normalizar a paternidade gay.

Embora não existam dados oficiais sobre gestação por substituição no Brasil, cerca de 6% dos tratamentos de reprodução assistida no país envolvem casais homoafetivos. Para aqueles que não encontram uma gestante no Brasil dentro das regras, países como Estados Unidos, Colômbia, México e Argentina oferecem alternativas, embora com custos significativamente mais elevados. Na Colômbia, o processo pode custar cerca de R$ 334 mil, enquanto nos Estados Unidos pode ultrapassar os R$ 741 mil, segundo estimativas da agência Tammuz Family.

Adoção e o impacto da paternidade intencional

A adoção é outra via para a paternidade, seguindo as mesmas regras para casais homoafetivos e heterossexuais. O processo envolve habilitação à Justiça, preparação e avaliação psicossocial, e inclusão no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento. O advogado Luan Mazzali Braghetta, especialista em direito de família, ressalta que o critério central da Justiça é o melhor interesse da criança, independentemente da orientação sexual dos pretendentes.

A psicóloga Camila Ribeiro, especialista em inteligência emocional, aponta que, embora as trajetórias complexas possam gerar desgaste emocional, elas também resultam em um alto nível de preparo e amadurecimento dos pais. “Ao chegar, essa criança é fruto de um desejo altamente elaborado e consciente, o que consolida uma base de compromisso muito consistente por parte dos pais”, observa.

Para Natália Aguilar, essa paternidade intencional e refletida fortalece os pilares do cuidado, da presença emocional e da construção de vínculos seguros. A qualidade das relações familiares, e não sua configuração, é o fator determinante para o desenvolvimento da criança. “A gente pode ter famílias formadas por casais gays que oferecem um ambiente muito mais afetivo e favorável ao desenvolvimento da criança do que famílias tradicionais que não conseguem proporcionar esse mesmo cuidado”, conclui.

Felipe e Rafael optaram pela gestação por substituição na Argentina, um processo que envolveu dois anos de exames, contratos, acompanhamento médico e jurídico, viagens e um investimento de cerca de R$ 500 mil até o nascimento de Leonardo. “Ele nasceu com 50 centímetros e 3,6 quilos. Foi uma das coisas mais lindas que vivi, ver a vida acontecendo. Foi aquele choque do tipo ‘cara, sou pai'”, declara Felipe.

Lucas Rangel e Lucas Bley viveram uma experiência semelhante nos Estados Unidos. “É como se você fosse retirado do planeta. Você entra em um estado quase anestésico e fica completamente imerso naquele momento do nascimento. Parece que você está vivendo em uma espécie de realidade paralela. É difícil explicar. A natureza tem algo de muito bonito”, descreve Rangel. A chegada de Mia trouxe um novo propósito para a vida do casal, que antes era centrada no trabalho. “Eu não consigo falar o que mudou, porque mudou tudo: a forma como você lida com a vida, como você se cuida. Porque não penso mais só em mim. Penso nela. Ela precisa de mim, e eu preciso estar bem por ela”, afirma Bley.

Ao compartilhar suas experiências nas redes sociais, Rangel e Bley, que somam mais de 30 milhões de seguidores, buscam influenciar positivamente a percepção social sobre famílias formadas por casais gays. “Eu vivo meu sonho, eu sou casado, eu tenho uma família. Se a gente consegue representar isso, falar sobre o nosso amor e sobre uma família gay, talvez a gente consiga normalizar ou mudar 0,1% da cabeça de alguém. Quem sabe, a gente consiga mostrar para um menino gay, que sonha em ter uma família, que é possível”, conclui Rangel.

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