A Amazônia brasileira, especialmente a região do Acre, pode abrigar um número surpreendentemente maior de estruturas monumentais pré-colombianas do que se estimava anteriormente. Uma nova pesquisa, publicada na renomada revista científica Nature, aponta para a existência de cerca de 20 mil geoglifos, grandes desenhos geométricos no solo delimitados por valetas, em comparação aos quase 1.300 já identificados por arqueólogos do Brasil e da Finlândia nos últimos anos.
A descoberta é fruto da aplicação de uma técnica avançada de mapeamento aéreo, conhecida como Lidar. Essa tecnologia utiliza pulsos de laser disparados por drones ou aviões para criar modelos tridimensionais detalhados do relevo do solo, mesmo sob densa cobertura vegetal. Ao penetrar a vegetação, o Lidar é capaz de revelar alterações sutis na topografia que indicam a presença de antigas estruturas humanas, como os geoglifos, além de estradas e outras construções associadas.
A pesquisa, liderada por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, em colaboração com arqueólogos brasileiros como Alceu Ranzi (Universidade Federal do Acre) e Rhuan Carlos Lopes (Universidade Federal do Pará), testou a eficácia do Lidar em uma área de 4.500 km² no Acre e Amazonas. Os resultados foram expressivos: para cada geoglifo conhecido por métodos tradicionais, a nova tecnologia identificou cinco novas estruturas. Essa proporção, mesmo em áreas já desmatadas, sugere que o número total de geoglifos em toda a região amazônica com presença dessas estruturas pode variar entre 20 mil e 30 mil.
Se essa nova estimativa se confirmar, a população indígena pré-colonial necessária para erguer tal quantidade de monumentos seria considerável. Os autores do estudo calculam que a população na região pudesse variar entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes, um número significativamente maior que os atuais 830 mil habitantes do estado do Acre. A área ocupada por esses antigos construtores, estimada em 183 mil km², é ligeiramente maior que o território acreano.
A Civilização Aquiry e a Função dos Geoglifos
Com base nas evidências, os pesquisadores propõem designar os construtores dessas estruturas como a civilização Aquiry, nome derivado da língua indígena Apurinã, do qual o nome do estado do Acre possivelmente se origina. As escavações indicam que a construção dos geoglifos começou antes de 500 a.C., atingindo seu auge entre os anos 100 d.C. e 300 d.C. Nessa época, a população regional teria ultrapassado 1 milhão de pessoas.
Interessantemente, não foram encontradas evidências de moradias dentro ou nas bordas dos geoglifos, nem sinais de ocupação de longo prazo. Isso leva os arqueólogos a postular que essas monumentais estruturas geométricas serviam como grandes terreiros cerimoniais. Tais espaços são comuns em diversas culturas indígenas amazônicas e brasileiras, sendo palco para rituais, danças e cantos. A escala e a frequência com que os geoglifos eram traçados indicam um esforço comunitário considerável e a necessidade de recursos para sustentar essas populações.
Agricultura Nativa e o Declínio de uma Tradição
Para viabilizar a construção e manutenção dessas estruturas, os pesquisadores apostam na eficiência da agricultura nativa da época. A relativa fertilidade dos solos acreanos, aliada ao cultivo de milho, mandioca e ao manejo de árvores frutíferas amazônicas, teria sido fundamental para sustentar uma população tão expressiva. Um dos mistérios que permanecem em aberto e que demandam futuras investigações é o motivo do declínio dessa tradição de construção de geoglifos na segunda metade do primeiro milênio da Era Cristã.
As informações foram reunidas a partir de dados publicados na revista científica Nature.
