Estratégia de campanha de Michelle Bolsonaro ao Senado prioriza o Distrito Federal e a proximidade familiar
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) iniciou sua jornada rumo ao Senado pelo Distrito Federal com uma estratégia que combina foco local e independência, sem, no entanto, se desvincular do palanque de seu enteado, Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência. A campanha de Michelle será um teste para sua capacidade de converter o capital político acumulado nos últimos anos em votos, concentrando sua atuação na capital do país e contando com o apoio de uma rede de aliados para ampliar sua presença em eventos.
A dinâmica da campanha de Michelle está intrinsecamente ligada à sua rotina ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre prisão domiciliar. Pessoas próximas à ex-primeira-dama indicam que a situação do marido restringe viagens frequentes pelo país, exigindo uma campanha mais focada em Brasília, com compromissos selecionados e maior ênfase nas redes sociais. Essa abordagem ficou evidente quando Michelle não compareceu à convenção do PL no Distrito Federal que oficializou sua candidatura, alegando uma crise de enxaqueca, e também esteve ausente do anúncio de Alfredo Gaspar como vice na chapa de Flávio Bolsonaro.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) explicou que Michelle tem se dedicado aos cuidados de Jair Bolsonaro, incluindo a preparação de suas refeições, em função da ausência de cuidadores. “Michelle está fazendo comida para o marido. A gente tentou trazer ela agora, mas ela está neste exato momento fazendo comida para o esposo. Não tem cozinheira, cuidador. Tem um cuidador de cachorro. Está tudo bem entre Flávio e Michelle”, afirmou Damares, ressaltando a harmonia entre o casal e o candidato presidencial.
Aliadas e família formam o núcleo da campanha de Michelle
A sustentação da estratégia local de Michelle Bolsonaro dependerá de aliados próximos, com destaque para a senadora Damares Alves e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). Ambas deverão representar Michelle em agendas e mobilizações quando sua presença for impossibilitada. “Onde você não for, eu vou estar”, assegurou Damares à ex-primeira-dama, segundo relato de Celina sobre os planos de campanha.
Essa concentração no Distrito Federal difere da expectativa inicial do PL nacional, que visava utilizar Michelle como um dos principais cabos eleitorais de Flávio Bolsonaro em âmbito nacional, dada sua influência junto ao eleitorado feminino, evangélico e conservador. Integrantes do partido admitem que o apoio de Michelle à candidatura presidencial de Flávio está mantido, mas sua participação em agendas nacionais será pontual, priorizando sua própria disputa pelo Senado e os cuidados com Jair Bolsonaro. Michelle demonstrou seu apoio à chapa presidencial do PL em suas redes sociais, escrevendo: “Que a chapa Flávio-Alfredo possa ser vitoriosa”.
A proximidade entre Michelle, Damares e Celina antecede a atual candidatura. As três estreitaram laços durante o governo Bolsonaro, participando juntas de agendas políticas e apoiando-se em eleições municipais. Agora, essa relação se traduzirá em uma atuação coordenada na disputa distrital. Celina Leão, que concorre à reeleição para o governo do DF, espera que as candidaturas se reforcem mutuamente. Damares Alves, já senadora, focará na mobilização de segmentos onde Michelle tem forte influência, como mulheres e evangélicos.
A influência de Celina Leão nas articulações de Michelle também ficou evidente durante uma recente crise com Flávio Bolsonaro. A residência oficial da governadora em Brasília foi o palco onde as mensagens para encerrar publicamente o desentendimento foram construídas, com a estratégia discutida previamente com Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial, antes de Flávio divulgar um pedido de desculpas à madrasta.
Além das aliadas políticas, a família de Michelle também desempenha um papel crucial em sua campanha. Seu irmão, Diego Torres, foi escolhido como suplente na chapa ao Senado e já a representou na convenção do PL-DF, lendo uma carta preparada por ela. Outra irmã, Geovana Kathleen Ferreira Lima, tem auxiliado nos cuidados com Jair Bolsonaro e com a filha mais nova do casal, Laura, permanecendo com o ex-presidente durante a crise de enxaqueca de Michelle, com autorização do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Reconciliação com Flávio fortalece candidatura presidencial do PL
Apesar da campanha independente de Michelle ao Senado, sua relação com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro permanece sólida. A reconciliação pública após um desentendimento reforça a unidade e o peso da ex-primeira-dama no eleitorado de direita, um ativo valioso para o PL. Uma pesquisa Genial/Quaest revelou que 59% dos entrevistados aprovaram a reconciliação, índice que sobe para 88% entre eleitores de direita não bolsonaristas e 90% entre bolsonaristas. O levantamento também indicou que 70% dos eleitores de direita não bolsonaristas e 79% dos bolsonaristas acreditam que a participação de Michelle aumenta as chances de vitória de Flávio.
O cientista político Jairo Pimentel, da FESPSP, avalia que esses números explicam o valor eleitoral da recomposição, pois Michelle funciona como um “sinal de unidade e legitimidade, diminuindo resistências ao candidato e facilitando a transferência do capital político de Jair Bolsonaro”. Pimentel observa que o recente avanço de Flávio Bolsonaro nas pesquisas se deve mais à consolidação do eleitorado de direita do que à conquista de eleitores de centro, com o senador “reunindo a família, recuperando a direita que estava dispersa e se consolidando como o herdeiro efetivo do bolsonarismo”.
Em um cenário de segundo turno, a pesquisa Genial/Quaest aponta Lula com 44% das intenções de voto contra 39% de Flávio Bolsonaro, uma redução na diferença que era de oito pontos percentuais em julho. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre 31 de julho e 3 de agosto de 2026, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%, registrada no TSE sob o número BR-06591/2026.
