Nova análise quantitativa sugere que a antiga metrópole de Mohenjo-daro, localizada no atual Paquistão, pode ter desenvolvido um grau notável de igualdade social ao longo de sua história. Os resultados de um estudo recente, publicado na revista Antiquity, aplicam o índice Gini, usualmente empregado para medir desigualdade econômica em países contemporâneos, à análise de construções residenciais da cidade. A pesquisa levanta novas questões sobre a relação intrínseca entre o desenvolvimento de civilizações complexas e o surgimento de disparidades sociais, um debate que ganhou força com publicações como “O Despertar de Tudo” de David Graeber e David Wengrow.
Por séculos, a arqueologia e a história tenderam a associar o avanço da complexidade social à necessidade de divisões sociais. Essa visão predominante no século XX postulava que a produção de excedentes agrícolas sustentaria especialistas, como artesãos e sacerdotes, que, por sua vez, seriam controlados por elites. Essa estrutura social hierárquica seria refletida na construção de infraestruturas monumentais, como palácios e templos. No entanto, evidências de locais como Mohenjo-daro, fundada por volta de 2500 a.C. e abandonada em 1700 a.C., desafiam essa linearidade.
Mohenjo-daro, cujo nome original é desconhecido e significa “monte dos mortos” em idiomas modernos, abrigou cerca de 40 mil habitantes em seu auge. A cidade impressiona por sua arquitetura de tijolos e pela presença de grandes estruturas, como tanques ou piscinas de uso público ou cerimonial. Curiosamente, não foram identificados vestígios de palácios ou templos que indicassem uma clara hierarquia de poder centralizado. A falta de escrita decifrada da civilização do Vale do Indo dificulta a compreensão detalhada de sua organização social.
A pesquisa liderada por Adam Green, da Universidade de York, e colegas da Universidade de Cambridge, analisou mapas de 309 áreas residenciais de Mohenjo-daro em diferentes fases de sua evolução. Ao aplicar o coeficiente Gini, que varia de 0 (igualdade perfeita) a 1 (desigualdade completa), os pesquisadores encontraram um índice geral de 0,44. Este valor é considerado menos desigual do que o do Brasil atual (0,511) e de muitas cidades antigas na Eurásia, embora ainda não caracterize uma igualdade absoluta.
Desigualdade residencial em declínio
Uma análise mais aprofundada, que exclui áreas com provável função não residencial, reduz o índice para cerca de 0,30. O cenário se torna ainda mais igualitário quando se focam nas áreas residenciais mais recentes, datadas a partir de 2100 a.C., onde o índice Gini cai para 0,23. É notável que essa tendência de maior igualdade não se correlacionou com uma piora no padrão de vida médio; o tamanho médio das residências permaneceu em torno de 141 metros quadrados.
Os pesquisadores sugerem que o desenvolvimento de um sistema padronizado de pesos e medidas e o uso de selos pessoais, indicativos de comércio e identidade, podem ter impulsionado um crescimento econômico que se distribuiu de forma mais equitativa. A existência de espaços públicos amplos, como as grandes piscinas, também pode ter servido como locais para negociações e debates, fomentando uma maior partilha da prosperidade crescente. Contudo, a confirmação exata de como essas dinâmicas sociais e econômicas se desenrolaram ainda requer mais investigação.
Os achados em Mohenjo-daro adicionam um capítulo importante ao debate sobre as origens das sociedades complexas e a inevitabilidade da desigualdade. Eles sugerem que modelos alternativos de organização social, onde a prosperidade pode coexistir com níveis mais baixos de estratificação, podem ter existido em civilizações antigas, desafiando concepções tradicionais e abrindo novas perspectivas para a compreensão do passado humano.
