Médicos são acusados de expor colegas e sugerir boicote a pacientes por posicionamento político
Médicos são acusados de expor colegas e sugerir boicote a pacientes por posicionamento político

Médicos são acusados de expor colegas e sugerir boicote a pacientes por posicionamento político

Divisões políticas chegam a consultórios e hospitais, gerando denúncias de perseguição e discriminação. A polarização política que marcou as eleições presidenciais no Brasil extrapolou o debate público e adentrou o ambiente médico, com profissionais relatando episódios de perseguição e sugestões de boicote a colegas e pacientes por suas posições políticas. Uma lista com nomes de […]

Resumo

Divisões políticas chegam a consultórios e hospitais, gerando denúncias de perseguição e discriminação.

A polarização política que marcou as eleições presidenciais no Brasil extrapolou o debate público e adentrou o ambiente médico, com profissionais relatando episódios de perseguição e sugestões de boicote a colegas e pacientes por suas posições políticas. Uma lista com nomes de médicos identificados como “Lulistas = esquerdistas = petistas”, alguns acompanhados de bandeiras do movimento LGBTQIA+, circulou em um grupo privado de WhatsApp de anestesiologistas em Sergipe, gerando temor e a sensação de ter um “alvo na cabeça” para um dos profissionais citados.

O caso, divulgado pela BBC News Brasil, expõe a tensão que se instalou em hospitais, consultórios e cooperativas médicas. Além da exposição pública de preferências eleitorais, há denúncias de mensagens que incentivam o tratamento diferenciado a pacientes com base em seus posicionamentos políticos.

Um anestesiologista de Sergipe, que pediu anonimato, relata ter se sentido exposto ao descobrir seu nome na lista. Ele procurou o colega apontado como autor da publicação, mas a conversa teria sido marcada por ofensas. O médico afirma que, embora tenha postado apoio a Lula em redes sociais privadas e participado de caminhadas, sempre evitou discussões políticas em ambientes de trabalho. Temendo por sua segurança, ele buscou medidas protetivas e formalizou denúncia à cooperativa médica, que o afastou temporariamente de escalonar junto ao colega em questão. O caso também está sendo avaliado para possível denúncia ao Conselho Regional de Medicina (CRM).

Boicote a pacientes e consequências políticas

Em outro caso, uma cardiologista da Bahia foi denunciada por compartilhar em seu Instagram Stories uma publicação que sugeria não ajudar eleitores do PT em filas de regulação, pedidos de emprego ou com auxílio financeiro. A publicação original era de uma ex-candidata a vereadora do PL. Embora a cardiologista tenha afirmado que o compartilhamento foi um “equívoco” e lamentado a “preocupação, a insegurança e o desconforto” causados, ressaltando seu compromisso com a ética médica e o atendimento humanizado sem discriminação, o perfil de sua clínica declarou não ter “lado político”. O caso gerou denúncia ao Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (Cremeb).

No Espírito Santo, o CRM abriu sindicância para apurar o caso de uma médica que teria ironizado a alteração de prescrições de medicamentos para pacientes com base no resultado das eleições. A deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG) criticou a atitude, comparando-a a um “boicote à existência da pessoa”. O CRM-ES informou que as denúncias são apuradas rigorosamente e tramitam em segredo de justiça.

Outros episódios ganharam repercussão nacional, como um médico do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, que publicou ataques a apoiadores de Lula, sendo o caso tratado pela instituição segundo seu código de ética. Em Goiânia, uma ginecologista foi afastada e demitida de um hospital municipal após pedir que colegas evitassem dar alta a pacientes no fim de semana da eleição, alegando que “a maioria é petista”. O caso foi encaminhado ao Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego).

O que dizem os conselhos e a legislação

O Conselho Federal de Medicina (CFM) reafirma que o Código de Ética Médica estabelece o atendimento obrigatório em casos de urgência e emergência, e que a medicina deve ser exercida “sem discriminação de nenhuma natureza”. Em casos de negativa de assistência, discriminação ou assédio político, a orientação é reunir provas e formalizar denúncias aos CRMs. Dependendo da gravidade, o caso pode ser levado ao Ministério Público, Defensoria Pública ou à Justiça comum.

A Lei nº 3.268/1957 prevê que os CRMs podem aplicar penalidades disciplinares que variam de advertência à cassação do exercício profissional. As entidades médicas defendem que divergências políticas não devem resultar em constrangimentos, perseguições ou prejuízos profissionais.

As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela BBC News Brasil.

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