Medea Benjamin: OTAN deveria ter acabado em 1991 e hoje caminha para o esgotamento
Medea Benjamin: OTAN deveria ter acabado em 1991 e hoje caminha para o esgotamento

Medea Benjamin: OTAN deveria ter acabado em 1991 e hoje caminha para o esgotamento

A escritora americana Medea Benjamin, voz proeminente do movimento pacifista nos Estados Unidos, defende que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) perdeu sua razão de existir após o fim da União Soviética em 1991 e que a aliança militar hoje caminha para um processo de esgotamento. Benjamin, autora de diversos livros sobre política […]

Resumo

A escritora americana Medea Benjamin, voz proeminente do movimento pacifista nos Estados Unidos, defende que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) perdeu sua razão de existir após o fim da União Soviética em 1991 e que a aliança militar hoje caminha para um processo de esgotamento. Benjamin, autora de diversos livros sobre política externa e conflitos globais e cofundadora da organização pacifista CodePink, estará no Brasil para participar da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) e lançar suas obras “OTAN: o que você precisa saber” e “Por Dentro do Irã, A verdadeira história política da República Islâmica”.

Em entrevista, Benjamin analisou o cenário internacional, com críticas contundentes ao militarismo que tem marcado a política externa do governo republicano de Donald Trump. Segundo a autora, a estratégia de Trump em relação ao Irã foi equivocada, baseada em uma avaliação errônea do poder do regime e da disposição do povo iraniano em se rebelar.

Benjamin argumenta que a morte de manifestantes em protestos anteriores ao conflito enfraqueceu o governo iraniano, mas que a resposta militar dos EUA, em vez de derrubar o regime, acabou por fortalecê-lo. Ela critica a ideia de que o povo iraniano deseje bombardeios, afirmando que os ataques apenas tornam a vida da população mais difícil, enquanto o governo se prepara para uma longa resistência. A autora também aponta que a população americana, que votou em Trump com a promessa de acabar com guerras intermináveis, se vê agora imersa em mais um conflito prolongado.

A escritora sugere que Trump calculou mal o poder do regime iraniano e pode ter sido influenciado por aconselhamentos como os do premiê israelense Benjamin Netanyahu. Ela acredita que Trump está em uma situação difícil, tentando reverter os efeitos de sua decisão de iniciar os bombardeios. Benjamin descreve Trump como um “presidente imperial” com um “senso irracional de importância e arrogância”, e aponta divisões internas na Casa Branca sobre a questão iraniana, com setores do Pentágono contrários à guerra.

O futuro da OTAN e o declínio da influência americana

Medea Benjamin é categórica ao afirmar que a OTAN deveria ter sido dissolvida em 1991, com o fim da União Soviética. Em vez disso, a aliança se fortaleceu, expandiu-se e envolveu-se em conflitos externos, tornando-se, segundo ela, uma organização militar mais agressiva. A autora prevê que a OTAN eventualmente se dissolverá, embora não seja possível prever quando.

Benjamin observa que a pressão de Trump para que os países membros da OTAN destinem mais recursos militares ocorre em um momento de dificuldades econômicas na Europa, gerando resistência à ideia de aumentar gastos com armamentos. Ela descarta a possibilidade de a Rússia atacar países como França, Reino Unido ou Suécia, criticando a propaganda que alimenta esse temor.

A autora também analisa o declínio da influência dos Estados Unidos no cenário global, atribuindo parte disso à imprevisibilidade e à abordagem militarista de Trump. A China, por outro lado, tem agido de forma estratégica, expandindo sua influência, especialmente na América Latina. Benjamin vê os EUA como um “tigre de papel”, perdendo recursos em gastos militares em vez de investir em seu próprio território e população.

A ONU disfuncional e a esperança em alianças regionais

A Organização das Nações Unidas (ONU) é descrita por Benjamin como “vergonhosa”, demonstrando incapacidade e falta de vontade para resolver conflitos. Ela aponta o desequilíbrio estrutural do Conselho de Segurança, com o poder de veto dos membros permanentes, como um dos fatores que tornam a organização disfuncional. Benjamin critica ainda os esforços dos EUA para minar instituições da ONU que lidam com o Estado de Direito, como o Tribunal Penal Internacional.

Diante desse cenário, a autora expressa esperança no fortalecimento de alianças regionais na América Latina, Ásia e África, visando a afirmação da soberania e a criação de um novo sistema multipolar. Ela aconselha os governos a não verem os EUA como um país estável e a buscarem múltiplas alianças como contrapeso ao poder americano.

As informações foram reunidas a partir de entrevista concedida por Medea Benjamin à Folha de S.Paulo.

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