Presidente Lula cobra engajamento da comunidade científica na busca por mais investimento em pesquisa e educação, apontando o orçamento federal como um obstáculo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conclamou, na última sexta-feira (24), que os cientistas brasileiros intensifiquem a pressão por maiores investimentos federais em pesquisa e educação. Em discurso para membros da Sociedade Brasileira para o Progresso Científico (SBPC), em São Paulo, Lula afirmou que sua atuação sozinho não seria suficiente para promover as mudanças necessárias, mesmo com seu conhecimento e vontade política. “Não espere que eu faça sozinho a coisa que tem que ser feita. Mesmo que eu soubesse, mesmo que eu fosse um cientista famoso […] se não houvesse a pressão, a gente não faz”, declarou o presidente, justificando que o orçamento atual é “muito apertado” e impede a realização de todas as metas.
A fala do presidente ocorreu em um evento a portas fechadas para a imprensa, com acesso liberado apenas para fotógrafos e cinegrafistas, prática que já havia sido adotada em agendas anteriores. Aos pesquisadores reunidos na sede da SBPC, fundada em 1948 e dedicada à defesa do desenvolvimento científico e educacional no país, Lula solicitou a elaboração de um “projeto de ciência convincente”. Ele enfatizou que as propostas científicas devem não apenas convencer seus pares, mas também a sociedade em geral, e manifestou insatisfação com a forma como as despesas orçamentárias são priorizadas.
Críticas à política orçamentária e defesa do investimento em ciência
Lula criticou a percepção pública e governamental que muitas vezes questiona a relevância da pesquisa científica. “Quando você fala em pesquisa, dizem ‘Pesquisar o quê, porra? Ficar estudando quatro, cinco anos, gastando o nosso dinheiro e não vai dar resultado’. É assim que muita gente pensa”, lamentou, defendendo a “teimosia para defender o que é correto neste país”. Em contrapartida, o presidente apontou a ironia de que o pagamento de juros da dívida pública, que totaliza “1 trilhão”, não é usualmente classificado como gasto. Ele relembrou sua “primeira grande briga” em mandatos anteriores, entre 2003 e 2006, para que as despesas com educação fossem tratadas como investimento, e não como gasto.
A preocupação com o subfinanciamento da ciência e educação tem sido uma constante em agendas do presidente desde o início de seu atual mandato. Dados de 2024 indicam uma redução nas publicações científicas brasileiras desde 2021, posicionando o país em 13º lugar no ranking mundial. No ano passado, a própria SBPC alertou que 16 das 17 unidades de pesquisa ligadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) corriam o risco de fechar por falta de recursos, o que afetaria inclusive ações de monitoramento de desastres climáticos. O financiamento para pesquisas é realizado por meio de órgãos como a Capes e o CNPq, vinculados aos Ministérios da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovações, respectivamente. Ministros de ambas as pastas, Camilo Santana e Luciana Santos, acompanharam Lula na agenda.
Medidas governamentais e elogios a Getúlio Vargas
Apesar dos desafios orçamentários, o governo federal liberou em janeiro deste ano quase R$ 1 bilhão para recompor o orçamento de universidades e institutos federais, após cortes realizados por congressistas na Lei Orçamentária Anual (LOA). Em seu discurso, Lula também fez referências históricas, elogiando Getúlio Vargas por ter “rompido com uma tradição conservadora” e por ter dado atenção a pessoas de “nível mais baixo”, além de enaltecer a criação da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) durante seu governo. O presidente celebrou os avanços das políticas de cotas no ensino superior, citando a USP como exemplo de transformação social, ao passar de uma universidade majoritariamente frequentada por brancos e pela classe média para um ambiente mais inclusivo.
As informações foram reunidas a partir de reportagens sobre o evento na SBPC.
