Hikikomori: o isolamento social extremo que preocupa psiquiatras
Hikikomori: o isolamento social extremo que preocupa psiquiatras

Hikikomori: o isolamento social extremo que preocupa psiquiatras

O que é o Hikikomori? Uma parcela cada vez maior de jovens tem trocado a convivência social por um isolamento profundo e duradouro, um comportamento extremo que acende um alerta sobre a saúde mental. Batizado como síndrome de hikikomori, o fenômeno, descrito pela primeira vez no Japão, tem seu nome derivado da tradução livre para […]

Resumo

O que é o Hikikomori?

Uma parcela cada vez maior de jovens tem trocado a convivência social por um isolamento profundo e duradouro, um comportamento extremo que acende um alerta sobre a saúde mental. Batizado como síndrome de hikikomori, o fenômeno, descrito pela primeira vez no Japão, tem seu nome derivado da tradução livre para “isolado em casa”. A condição se manifesta quando adolescentes e adultos jovens passam semanas, meses ou até anos reclusos em um único ambiente, evitando qualquer tipo de interação presencial e mantendo contato com o mundo quase exclusivamente por meio de telas.

O quadro, observado em diversos países, foi um dos temas abordados durante o congresso Encéphale 2026, realizado na França. “É uma situação grave. No Japão, chega a atingir de 1% a 2% dos adolescentes. No restante do mundo, ainda não há uma estimativa epidemiológica bem estabelecida”, explica o psiquiatra Alfredo Maluf, do Einstein Hospital Israelita. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo congresso Encéphale 2026 e pelo Einstein Hospital Israelita.

Um Fenômeno sem Classificação Própria

Do ponto de vista clínico, o hikikomori ainda não possui uma classificação específica em manuais diagnósticos como a Classificação Internacional de Doenças (CID) ou o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Geralmente, é enquadrado em condições relacionadas à dependência de internet ou jogos. A síndrome pode se apresentar de duas formas: primária, quando ocorre isoladamente, sem associação com outros transtornos mentais; ou secundária, quando está ligada a condições como depressão, ansiedade, fobia social, esquizofrenia ou transtornos do neurodesenvolvimento.

“É uma condição difícil de diagnosticar. Quando o paciente preenche critérios para outras patologias, o hikikomori passa a ser considerado um quadro secundário”, afirma Maluf. Diversos fatores de risco estão envolvidos, incluindo baixa autoestima, dificuldades de socialização, histórico de bullying, traumas na infância e dinâmicas familiares disfuncionais.

Fatores de Risco e o Papel das Telas

Em alguns casos, observa-se relação com traços do espectro autista (TEA) ou com o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), que podem intensificar o isolamento social. Nesses cenários, o comportamento surge como uma forma de proteção diante de frustrações e pressões externas, especialmente aquelas ligadas ao desempenho escolar e às expectativas sociais. Quanto ao uso excessivo de telas, há quem acredite que funcione como fator de risco, mas também há indícios de que seja uma consequência do isolamento.

Na visão do psiquiatra do Einstein, o uso intenso da internet pode contribuir para o quadro ao favorecer padrões de dependência, com sintomas como irritabilidade, ansiedade e dificuldade em lidar com frustrações fora do ambiente virtual. Os sinais de alerta costumam surgir de forma gradual: afastamento progressivo de atividades sociais, desinteresse por interações presenciais, alterações no sono, irritabilidade e aumento significativo do tempo online. A chamada “desadaptação social”, como define Alfredo Maluf, é um dos principais indícios de que o indivíduo pode estar caminhando para um quadro mais grave.

Tratamento e a Importância da Família

O tratamento do hikikomori exige uma abordagem ampla e individualizada, baseada no histórico do paciente. Intervenções psicoterapêuticas, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, são consideradas fundamentais e podem ser associadas ao uso de medicamentos, dependendo dos sintomas apresentados.

“Além disso, o envolvimento da família é peça-chave no processo. Estratégias baseadas no acolhimento, e não na pressão, tendem a ser mais eficazes para reconstruir vínculos e estimular, gradualmente, a retomada da vida social”, orienta o médico.

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