Hepatites D e E: Alerta para as formas menos conhecidas de infecção hepática no Brasil
Hepatites D e E: Alerta para as formas menos conhecidas de infecção hepática no Brasil

Hepatites D e E: Alerta para as formas menos conhecidas de infecção hepática no Brasil

Embora menos lembradas, hepatites D e E representam um desafio silencioso para a saúde pública brasileira, com potencial para complicações graves e diagnóstico dificultado. Uma revisão recente de mais de 200 estudos revela que esses vírus circulam em frequências significativas em determinadas áreas do país, especialmente na Amazônia e no Sul, alertando para a necessidade […]

Resumo

Embora menos lembradas, hepatites D e E representam um desafio silencioso para a saúde pública brasileira, com potencial para complicações graves e diagnóstico dificultado. Uma revisão recente de mais de 200 estudos revela que esses vírus circulam em frequências significativas em determinadas áreas do país, especialmente na Amazônia e no Sul, alertando para a necessidade de incluí-los no radar clínico e investigativo.

As hepatites virais A, B e C são as mais conhecidas, mas a existência dos tipos D e E no Brasil merece atenção. Uma pesquisa abrangente, liderada por cientistas do Einstein Hospital Israelita e publicada na revista PLOS One, analisou dados de 14,5 milhões de pessoas entre 2013 e 2024. Os resultados indicam que a hepatite D, também conhecida como Delta, pode atingir mais de 20% da população em algumas localidades da região amazônica. Já a hepatite E apresentou índices alarmantes de até 59% em levantamentos realizados no Sul do país.

“A pesquisa nos alerta para a presença dessas sorologias incomuns que podem não estar sendo diagnosticadas corretamente por não estarem no radar de nossa prática clínica”, afirma o patologista João Renato Rebello Pinho, coordenador do estudo. Essa constatação sugere que muitos casos podem passar despercebidos, comprometendo o acompanhamento e tratamento adequados.

Particularidades e Riscos dos Vírus D e E

As cinco formas de hepatite viral – A, B, C, D e E – diferem em suas vias de transmissão, evolução e métodos de prevenção. Enquanto as hepatites A e E estão predominantemente ligadas à ingestão de água ou alimentos contaminados, os tipos B, C e D têm maior associação com o contato sexual e exposição a sangue e outros fluidos corporais.

A hepatite D possui uma característica peculiar: ela necessita da presença do vírus da hepatite B para se replicar no organismo. Isso explica sua maior incidência em regiões onde o vírus B é mais comum e reforça a importância da vacinação contra a hepatite B como medida preventiva também para a hepatite D. A coinfecção hepatite B e D pode ser particularmente perigosa, aumentando o risco de danos hepáticos severos, mesmo quando o vírus B parece estar controlado.

No Brasil, o genótipo 3 do vírus D, associado a quadros mais graves, é predominante na Amazônia. A falta de testes rápidos para diagnóstico e o tratamento complexo, somados às dificuldades de acesso à saúde em populações isoladas como ribeirinhos e indígenas, agravam o prognóstico. A hipótese de que o genótipo 3, por causar infecções mais severas, limita a mobilidade dos infectados e, consequentemente, sua disseminação, é uma das explicações para sua distribuição geográfica específica.

A hepatite E, por sua vez, é transmitida principalmente pela ingestão de água e alimentos contaminados, mas também por contato com animais infectados, especialmente suínos. O genótipo 3 é o mais comum no Brasil. Embora geralmente menos agressivo que outras variantes, pode levar a lesões hepáticas graves e, em casos extremos, demandar transplante de fígado. A alta prevalência em estudos no Sul do país, uma região com forte atividade suinícola, corrobora a ligação com o consumo de produtos de origem animal e a proximidade com esses animais.

Desafios no Diagnóstico e a Necessidade de Ampliar Pesquisas

A escassez de estudos sobre as hepatites D e E dificulta a compreensão de sua real dimensão no país, incluindo a extensão da circulação viral, os grupos mais vulneráveis e a identificação de portadores assintomáticos. A falta de investigações adequadas pode resultar em diagnósticos tardios ou ausentes, impedindo o acesso a cuidados essenciais.

A própria revisão de estudos aponta uma limitação: os dados de prevalência podem refletir a intensidade da pesquisa em determinadas áreas e populações, e não necessariamente a distribuição completa dos vírus. Diante desse cenário, especialistas ressaltam a importância de fortalecer as estratégias de vacinação, ampliar o acesso ao diagnóstico e tratamento, e investir em pesquisa para aprimorar a vigilância epidemiológica. A meta global de eliminar as hepatites virais como problema de saúde pública até 2030 exige um olhar atento e ações direcionadas também para as formas menos conhecidas da doença no Brasil.

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