Governo federal mantém sigilo sobre despesas milionárias do cartão corporativo
O governo federal optou por manter sob sigilo aproximadamente R$ 83 milhões em despesas da Presidência da República realizadas através do cartão corporativo entre o início de 2023 e agosto de 2026. Essa decisão contrasta com o discurso de transparência adotado durante a campanha eleitoral e se soma a mais de 22 mil negativas de acesso à informação concedidas pela gestão atual, em um cenário de tensão pública sobre a abertura de dados.
O valor total desembolsado pela Presidência com o Cartão de Pagamento do Governo Federal no período alcançou R$ 84,54 milhões. Deste montante, R$ 83,37 milhões, o equivalente a cerca de 98,6% do total, foram classificados como sigilosos. Isso impede que a sociedade tenha acesso a detalhes essenciais como a identificação do fornecedor ou a natureza exata das compras, restando visíveis apenas o mês, o ano, o valor da transação e a unidade administrativa responsável, como o gabinete pessoal do presidente.
As informações foram apuradas a partir de dados oficiais do Painel de Gastos do Cartão Corporativo e do Painel Busca LAI.
Justificativas para o sigilo e negativas de acesso
A principal justificativa apresentada pelo governo para a ocultação desses dados é a necessidade de preservar a segurança do presidente, de seus familiares e das equipes de proteção. Argumenta-se que a divulgação de detalhes sobre hospedagens, trajetos, combustíveis ou alimentação poderia expor rotinas e comprometer a integridade física das autoridades. Contudo, essa prática se choca com os pedidos realizados por cidadãos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
Os registros oficiais indicam que o Poder Executivo federal negou um total de 22.474 solicitações de acesso à informação entre 2023 e outubro de 2026. O ano de 2023 concentrou o maior volume de negativas, com mais de 6.200 pedidos barrados, e a média anual de rejeições tem se mantido acima de cinco mil desde então. Essas recusas abrangem todos os ministérios e entidades governamentais, frequentemente fundamentadas na proteção de dados pessoais, informações em fase de preparação ou consideradas estratégicas para a segurança nacional.
Exemplos de informações barradas
Entre os casos que chamam a atenção estão a negativa do Ministério das Relações Exteriores em detalhar gastos com a primeira-dama Janja e artistas em embaixadas no exterior, sob a alegação de falta de especificação de datas ou locais. Outro exemplo notório é a recusa do Gabinete de Segurança Institucional em fornecer a lista de visitantes dos palácios da Alvorada e do Planalto, incluindo registros de visitas de familiares do presidente e de autoridades judiciárias, sob o argumento de que tais informações se referem à vida privada e à segurança das altas autoridades.
