Aulas suspensas em Itapeva (SP) devido a surto de gastroenterite
As redes municipal e estadual de ensino de Itapeva, no interior de São Paulo, suspenderam as aulas a partir desta quinta-feira (29) após a confirmação da presença de um parasita em amostras de água da cidade. A medida visa proteger a saúde de estudantes, professores e servidores diante de um surto de gastroenterite que já atingiu aproximadamente 2.600 pessoas nos últimos 20 dias. A decisão foi comunicada pela prefeita Adriana Duch Machado (MDB) em suas redes sociais na noite de quarta-feira (28).
A Prefeitura de Itapeva informou que se reuniu com autoridades estaduais para definir ações de segurança, intensificar o monitoramento e garantir a qualidade da água. No entanto, os detalhes sobre essas medidas não foram divulgados. A Secretaria Municipal da Saúde assegurou que as investigações e ações de prevenção continuam em andamento em colaboração com os órgãos competentes.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Prefeitura de Itapeva e pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
Identificação de microrganismos na água e em pacientes
Análises realizadas pelo Instituto Adolfo Lutz identificaram a presença do parasita Cryptosporidium em amostras de água coletadas em uma praça na região central do município no dia 19 de outubro. Paralelamente, exames clínicos em pacientes com sintomas da doença detectaram a bactéria Escherichia coli enteroagregativa. Ambos os microrganismos estão associados a infecções intestinais e podem causar diarreia, embora por mecanismos distintos.
O Cryptosporidium é um parasita que infecta o intestino e é eliminado nas fezes na forma de oocistos, estruturas resistentes que sobrevivem no ambiente por longos períodos e são tolerantes às doses convencionais de cloro usadas no tratamento da água. Especialistas apontam que esses cistos são muito resistentes a desinfetantes comuns e nem sempre são removidos ou inativados pelos métodos tradicionais de tratamento de água, podendo resistir mesmo a clorações mais elevadas.
Já a Escherichia coli enteroagregativa é uma bactéria intestinal ligada à diarreia infecciosa, transmitida pelo consumo de água ou alimentos contaminados. Os sintomas podem incluir diarreia persistente, dor abdominal e mal-estar, com duração variável.
Riscos à saúde pública e orientações à população
A presença de microrganismos associados à contaminação fecal na água representa um sério risco à saúde pública, pois a exposição pode ocorrer não apenas pela ingestão direta, mas também pelo uso da água no preparo de alimentos, na higiene de utensílios e na escovação dos dentes. Os sintomas geralmente surgem cerca de uma semana após a exposição à água contaminada e, em indivíduos saudáveis, tendem a desaparecer em até duas semanas.
O risco é acentuado para crianças pequenas, idosos e pessoas com o sistema imunológico comprometido, como pacientes com HIV ou em tratamento quimioterápico. Nesses grupos, a diarreia pode se prolongar, levar à desidratação grave e necessitar de internação hospitalar. Infectologistas alertam que ambos os agentes podem prolongar o quadro diarreico para semanas, resultando em perda de peso, de nutrientes e, em crianças, prejuízo ao crescimento. Há também o risco de contágio dentro do ambiente familiar, pois os microrganismos podem se espalhar pela via fecal-oral.
Diante da situação, a prefeitura orienta a população a ferver a água por pelo menos cinco minutos antes de utilizá-la para consumo, preparo de alimentos ou higiene bucal. Recomenda-se também lavar bem as mãos e os alimentos crus com água potável ou fervida. Em caso de diarreia, é fundamental manter a hidratação e procurar atendimento médico se houver sinais de desidratação (boca seca, pouca urina, sonolência), febre persistente ou sangue nas fezes. O tratamento baseia-se na reposição de líquidos e sais minerais, podendo ser necessário o uso de soro de reidratação oral ou, em casos mais graves, hidratação venosa. O uso de medicamentos deve ser feito sob prescrição médica.
Investigação e medidas de controle
A Câmara Municipal de Itapeva instaurou uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para investigar a qualidade da água na cidade e determinar se houve falhas no tratamento e abastecimento que possam ter contribuído para o surto. A comissão terá 90 dias para apresentar suas conclusões.
Nesta semana, a Secretaria de Estado da Saúde (SES-SP) realizou uma reunião com a concessionária de água, a Secretaria de Meio Ambiente e a Agência Reguladora para definir medidas que garantam a potabilidade da água. A SES-SP também enviou mais de 40 mil frascos de hipoclorito de sódio a 2,5% para distribuição à população, visando reforçar as ações de prevenção e desinfecção.
