Estudo da FMUSP evidencia risco elevado de violência psicológica contra mulheres grávidas e com filhos pequenos.
Mulheres grávidas ou que tiveram filhos nos últimos 18 meses enfrentam um risco 94% maior de sofrer violência psicológica por parte de seus parceiros ou ex-parceiros, em comparação com mulheres sem filhos. A constatação é de um estudo realizado por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), publicado no periódico científico Journal of Interpersonal Violence. A pesquisa também aponta que mães de crianças com mais de 18 meses ainda apresentam um risco elevado, sendo 60% mais propensas a vivenciar esse tipo de abuso.
A pesquisa, que utilizou dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, coletados pelo IBGE, analisou as respostas de 26.006 mulheres entre 18 e 49 anos. Os resultados indicam que, embora a violência física ou sexual não apresente alterações significativas durante a gestação e o pós-parto em relação a outros períodos da vida da mulher, o comportamento abusivo do parceiro tende a se concentrar em agressões emocionais e verbais nessa fase.
Na população geral avaliada pelo estudo, a taxa de violência psicológica foi de 7,9%, enquanto a de violência física ou sexual atingiu 3,6%. Os participantes foram categorizados em três grupos com base em seu histórico reprodutivo: mulheres sem filhos, grávidas ou com bebês de até 18 meses, e mulheres com filhos mais velhos. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo IBGE.
Impactos profundos na saúde e no desenvolvimento
A violência psicológica, conforme definida no estudo, abrange uma gama de comportamentos como insultos, humilhações públicas, ameaças de dano físico à parceira ou a pessoas próximas, destruição intencional de bens e uso indevido de redes sociais ou do celular para constrangimento ou ameaças. Essas agressões durante a gestação têm um impacto direto na saúde mental da mãe, podendo estar associadas ao desenvolvimento de depressão pós-parto e ideação suicida.
Além disso, a violência vivenciada pela gestante pode prejudicar o desenvolvimento do feto, aumentando o risco de partos prematuros e de problemas emocionais futuros para a criança. O estudo reforça a gravidade do problema, que transcende o bem-estar materno e afeta o desenvolvimento saudável da prole.
Fatores de vulnerabilidade e a importância da prevenção
O levantamento também identificou fatores sociais que aumentam a vulnerabilidade das mulheres à violência. Baixa escolaridade, com ensino fundamental incompleto ou completo, e baixa renda familiar, de até meio salário mínimo por pessoa, foram associados a um maior índice de violência psicológica, física e sexual. Esses dados sublinham a necessidade de políticas públicas que considerem as desigualdades sociais no combate à violência doméstica.
Alexandre Faisal Cury, autor do estudo e pesquisador da FMUSP, enfatiza que os resultados reforçam a urgência de tratar a violência por parceiro íntimo como um grave problema de saúde pública, especialmente entre as populações mais vulneráveis. Diante desse cenário, os autores do estudo defendem o fortalecimento de estratégias de prevenção voltadas especificamente para o período perinatal, que engloba desde o pré-natal até os primeiros meses de vida do bebê.
A recomendação central é que as equipes de saúde responsáveis pelo atendimento a gestantes e puérperas recebam treinamento adequado para identificar sinais, muitas vezes sutis, de abuso psicológico. O objetivo é oferecer acolhimento e intervenção precoces, antes que a violência escale para formas mais graves de agressão física, garantindo a segurança e o bem-estar de mães e bebês.
