A segurança pública, um tema que transcende os centros urbanos, encontra nas extensas e vulneráveis fronteiras brasileiras um de seus maiores desafios, especialmente em um ano eleitoral. Com mais de 16 mil quilômetros de extensão terrestre, dividindo o país com 10 nações, a região de divisa se tornou um ponto nevrálgico para a crise de segurança interna, alimentando debates políticos e exigindo soluções urgentes que vão além dos discursos de campanha.
O crime que assusta os cidadãos nas metrópoles, como roubos, homicídios e o domínio de facções, tem raízes profundas na fragilidade da fiscalização transfronteiriça. A porosidade dessas divisas, que englobam quase 600 municípios e abrigam cerca de 11 milhões de pessoas, transforma a segurança nas fronteiras em um palco de disputa política. Candidatos a todos os cargos eletivos utilizam a vulnerabilidade dessas áreas como argumento para suas campanhas, tensionando discussões sobre soberania nacional, cooperação diplomática e a necessidade premente de investimentos em tecnologia e inteligência.
A série “Brasil Seguro”, que analisa falhas em políticas de segurança e propõe soluções, destaca a complexidade do cenário. As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo Fórum de Segurança Pública, Instituto Mãe Crioula e pesquisas eleitorais do instituto Real Time Big Data.
Mato Grosso do Sul: Corredor do Tráfico e Eleições em Foco
O Mato Grosso do Sul, com mais de 1.500 km de fronteira com o Paraguai e a Bolívia, figura como um dos estados mais expostos. A região é o principal corredor logístico para a entrada de maconha, cocaína e armas de grosso calibre no Brasil. Cidades-gêmeas como Ponta Porã e Pedro Juan Caballero, separadas por uma simples avenida, exemplificam a dificuldade da fiscalização tradicional em “fronteiras secas”. A chamada “Rota Caipira”, uma das mais antigas rotas de entrada de entorpecentes do país, utiliza essa divisa para abastecer as metrópoles do Sudeste e os portos de Santos e Paranaguá.
Diante da relevância do tema, o governador Eduardo Riedel (PP), em busca de reeleição, tem concentrado seu discurso e ações de combate ao crime organizado na faixa de fronteira. Pesquisas eleitorais indicam que ele lidera as intenções de voto com uma vantagem considerável, demonstrando a sintonia entre a pauta de segurança e o eleitorado local.
Mato Grosso: “Voos Caipiras” e a Dominação de Facções
No Mato Grosso, a fronteira de quase 980 km com a Bolívia, um dos maiores produtores mundiais de cocaína, é marcada pela ascensão dos “voos caipiras”. Pequenas aeronaves utilizam pistas clandestinas em fazendas para despejar pasta-base de cocaína diretamente no coração do Centro-Oeste. Essa dinâmica agrava o cenário de violência no estado, onde 92 das 142 cidades são dominadas por facções criminosas, como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). A presença dessas organizações em municípios como Cáceres, onde atuam facções distintas, evidencia a complexidade do problema.
Os entorpecentes transportados por esses voos são distribuídos para outros estados do Sudeste e chegam a portos e aeroportos da região, utilizando a malha rodoviária para a distribuição. O crime organizado na região não se limita ao tráfico de drogas, mas também inclui roubo de defensivos agrícolas, gado, grãos e lavagem de dinheiro através de propriedades rurais. Uma operação recente do Ministério Público de Mato Grosso desarticulou um grupo suspeito de desviar R$ 140 milhões em grãos, demonstrando a infiltração do crime nas atividades produtivas.
Com a sensação de insegurança elevada e a saída do governador Mauro Mendes para disputar o Senado, a corrida eleitoral pelo governo do estado promete um discurso de firmeza contra o crime organizado. As pesquisas indicam Wellington Fagundes (PL) como líder nas intenções de voto, com vantagem sobre os demais pré-candidatos.
Amazônia: Rios Navegáveis e a Complexa Teia do Crime
Na vasta região amazônica, que abrange estados como Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima, Pará e Amapá, a vulnerabilidade das fronteiras se manifesta através de milhares de quilômetros de rios navegáveis e floresta densa. No Amazonas, a tríplice fronteira com Colômbia e Peru se configura como uma das áreas mais isoladas e perigosas do planeta. Rios como Solimões e Japurá são utilizados para o transporte de drogas em lanchas rápidas.
O combate ao crime nessas regiões é ainda mais complexo devido à sobreposição de crimes ambientais e transnacionais. A extração ilegal de ouro, a exploração madeireira e a pesca clandestina são frequentemente financiadas e protegidas pelas mesmas facções que controlam o transporte de drogas e armas pelos rios.
Transformando Discursos em Ação Concreta
Especialistas apontam a integração de informações e ações entre as diversas esferas do poder público como fundamental para um controle mais efetivo das fronteiras. Wagner Mesquita, delegado da Polícia Federal aposentado e consultor de segurança, cita o exemplo do “Diffusion Center” em El Paso, nos Estados Unidos, um centro que reúne representantes e informações de mais de 20 órgãos governamentais no combate ao tráfico internacional. Ele também destaca um projeto pioneiro implementado no Paraná, na região da tríplice fronteira com Argentina e Paraguai, que integra mais de 15 instituições brasileiras e representantes de outros países.
A vulnerabilidade das fronteiras terrestres brasileiras é um desafio persistente que transcende o período eleitoral. As realidades distintas de Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Amazonas exigem respostas personalizadas, enquanto modelos de cooperação internacional, como os de El Paso e da tríplice fronteira, podem servir de eixo estruturante. O grande desafio para os eleitos em 2026 será transformar os discursos de campanha em planos de ação concretos e eficazes para garantir a segurança em todo o território nacional.
