Médicos franceses acendem o sinal vermelho para a onda crescente de procedimentos estéticos realizados na clandestinidade, prática que já resultou na morte de duas mulheres em poucos meses e é classificada como uma “emergência de saúde pública”. A falta de regulamentação e a facilidade de divulgação em redes sociais expõem a população a riscos graves, com injeções de substâncias como botox e ácido hialurônico sendo aplicadas em locais inadequados e por indivíduos sem qualquer formação médica.
O alerta parte de profissionais da área, que denunciam que cerca de 40% das injeções de toxina botulínica e preenchimentos com ácido hialurônico são realizadas fora do ambiente médico seguro. Esses procedimentos ocorrem em “apartamentos, institutos ou locais que escapam a qualquer tipo de controle”, segundo o médico Eric Essayagh, copresidente do Círculo de Boas Práticas em Medicina Estética da França. A situação é tão alarmante que um manifesto foi publicado no jornal Le Parisien, pedindo ação urgente das autoridades de saúde.
As mortes recentes intensificaram a preocupação. Em julho, uma jovem de 25 anos faleceu em Nice após receber injeções de botox nos glúteos em um salão de beleza. A aplicação de lidocaína, um anestésico, teria desencadeado o mal-estar fatal. A responsável pelo procedimento, que atuava clandestinamente desde 2022, não possuía formação específica. Em março, uma mulher de aproximadamente 40 anos morreu em Villeurbanne após uma parada cardíaca durante um procedimento similar em um apartamento, realizado por uma influenciadora digital que se apresentava como especialista.
Ações clandestinas e substâncias de origem duvidosa
A investigação nos locais onde ocorreram as mortes revelou a presença de diversos produtos, incluindo medicamentos, seringas e substâncias injetáveis de origem asiática, levantando dúvidas sobre a procedência e segurança dos materiais utilizados. Os médicos alertam que os procedimentos clandestinos frequentemente envolvem o aumento de lábios, alisamento de rugas e aumento de glúteos com substâncias de “origem duvidosa”, aplicadas por pessoas sem conhecimento de anatomia, resultando em “mutilações graves” e desfiguração, especialmente em jovens.
O manifesto assinado por profissionais da medicina estética questiona diretamente a Ministra da Saúde francesa, Stéphanie Rist, cobrando medidas eficazes para coibir essa prática. Eles relatam a frequência com que se deparam com casos de narizes que caem, lábios destruídos e tecidos cutâneos em decomposição, consequências diretas de injeções malfeitas.
O papel das redes sociais e o apelo por fiscalização
As redes sociais são apontadas como um dos principais vetores para a divulgação desses serviços ilegais, conectando o público a profissionais não qualificados. O Sindicato de Cirurgia Plástica, Reconstrutiva e Estética da França já havia emitido um alerta ao governo em 2022, mas, segundo o secretário-geral Adel Louafi, a resposta foi insuficiente. Ele apela para que “as autoridades sanitárias e judiciais batam na mesa para obrigar as redes sociais a fechar as contas que são manifestamente ilegais”, destacando a falta de “consciência” sobre a gravidade do problema.
A situação, segundo especialistas, é subestimada há anos pelas autoridades, mas o aumento de casos graves e mortes exige uma resposta imediata para proteger a saúde pública e evitar que mais vidas sejam destruídas por procedimentos estéticos realizados sem o devido rigor técnico e médico.
