A Festa Literária de Paraty se tornou palco para reflexões sobre o papel da política na arte, contrastando a pureza literária com a polarização ideológica.
A Flip, tradicional Festa Literária Internacional de Paraty, mais uma vez se consolidou como um evento onde a literatura se encontra com o debate público, expondo a tênue linha que separa a arte da sua politização. Em meio à efervescência cultural, a presença de figuras proeminentes da política e da igreja, como o cardeal poeta José Tolentino Mendonça, a ministra do STF Cármen Lúcia e a deputada Erika Hilton, evidenciou a inevitável imersão de eventos culturais no cenário ideológico contemporâneo.
A percepção de que a sociedade está hiperpolitizada foi reforçada pela observação da programação, que, para muitos, já antecipava um viés ideológico progressista, com a chamada “extrema direita” sendo alvo de análises e críticas. Questionamentos sobre a relevância de tais debates para a literatura, especialmente para homenageados como Orides Fontela, cuja obra se destaca pela poesia metafísica e distanciamento do “comezinho político”, surgiram como um reflexo da busca por um espaço literário menos permeado por agendas partidárias.
A presença de personalidades como a ministra Cármen Lúcia, convidada para discutir obras literárias clássicas como “Grande Sertão: Veredas”, gerou desconforto entre alguns participantes, que lamentaram a associação de temas literários profundos a figuras cujas decisões políticas, como a permissão de censura em 2022, são vistas como contraditórias à liberdade de expressão. No entanto, a organização do evento também ofereceu um contraponto, com mesas dedicadas a temas como a monarquia brasileira e a filosofia de Santo Agostinho, demonstrando a coexistência de diferentes vertentes de pensamento.
O Encontro com o Mistério e a Indigência Ideológica
O ponto alto para muitos, contudo, foi a participação do cardeal José Tolentino Mendonça. Sua missa de abertura e, posteriormente, sua mesa de debates, que emocionou e aplaudiu o público, confirmaram o impacto de sua obra poética. A antologia “Os Enigmas Singulares” alcançou destaque entre os livros mais vendidos da Flip, sinalizando o reconhecimento de sua produção literária.
Em um momento de autógrafos, o cardeal poeta, ao ser solicitado a assinar um haicai com a frase “O que se instala na perfeição / desconhece o que só a indigência / revela”, acrescentou em voz baixa: “não temas a pobreza”. Essa troca, para o observador, tornou-se uma metáfora sobre a “indigência ideológica” que permeia o cenário atual, mesmo em um evento dedicado à arte. A reflexão se estendeu para a leitura de sua obra, onde a busca por “Deus pelos baldios” evoca a possibilidade de encontrar o transcendente mesmo em “áreas comuns”, um conceito que, ao unir o sentido português e brasileiro da palavra, pode definir a própria Flip: um espaço literário ora abandonado, ora pastoreado pela política, mas onde, ainda assim, o mistério se faz presente.
As informações foram reunidas a partir de relatos de participantes e observadores da Flip.
