A busca por raízes e a descoberta de um passado sombrio
Uma história familiar de longas gerações e conexões transatlânticas ganhou contornos inesperados com a recente liberação e digitalização de arquivos do partido nazista. O que antes era apenas um relato sobre a proibição de línguas estrangeiras e um episódio peculiar envolvendo um bisavô durante o Estado Novo de Getúlio Vargas, transformou-se em uma jornada de investigação genealógica com descobertas chocantes. A busca pelo sobrenome alemão Weihermann em bases de dados acessíveis online, como a ferramenta criada pelo semanário Die Zeit, revelou a filiação de parentes ao NSDAP, o partido nazista, lançando uma sombra sobre a narrativa festiva e familiar.
A história familiar sempre foi marcada por grandes encontros, reflexo de uma árvore genealógica que se expandiu exponencialmente ao longo de décadas, com membros espalhados entre Alemanha e Brasil. A migração de parte da família para o Sul do Brasil, em 1924, buscava melhores condições de vida em meio à instabilidade econômica europeia do pós-Primeira Guerra Mundial. No entanto, a pesquisa genealógica em arquivos do partido nazista, facilitada pela disponibilização de cópias digitais pelos Estados Unidos, trouxe à tona a participação de alguns membros na estrutura do regime.
As informações foram reunidas a partir de dados disponíveis em arquivos públicos e ferramentas de pesquisa online dedicadas a registros do partido nazista.
Parentes no Partido Nazista: Hubert e Ewald
A primeira descoberta perturbadora foi a filiação de Hubert, um dos irmãos do bisavô, ao partido nazista em 1937. A notícia gerou um misto de choque e estranhamento, contrastando com o tom leve e festivo que geralmente permeia as reuniões familiares. Um sobrinho de Hubert, primo do avô da autora, comentou que a notícia não o surpreendia, afirmando que Hubert “nunca esteve realmente integrado à família”. As poucas informações disponíveis indicam que ele trabalhou na construção civil, teve um filho natimorto e uma filha que faleceu sem deixar descendentes. Especulações apontam para um possível ressentimento após a Primeira Guerra Mundial ou radicalização no ambiente de trabalho como fatores que poderiam ter levado à sua filiação.
A data de ingresso de Hubert no partido sugere que ele não pertencia ao grupo de extremistas iniciais, mas sim a uma onda posterior de oportunistas que aderiram ao NSDAP após Hitler ascender ao poder. O partido chegou a suspender novas admissões até 1937, ano em que Hubert se filiou, em uma tentativa de controlar o influxo de novos membros.
O Papel do Blockleiter: Vigilância e Controle Social
A pesquisa avançou para os documentos de desnazificação, questionários impostos pelos governos de ocupação após a guerra para avaliar o grau de envolvimento de indivíduos com o Terceiro Reich. Neste contexto, surgiu a figura de Ewald, um primo de terceiro grau, engenheiro de inspeção que foi demitido de seu emprego por ter se filiado ao partido e atuado como blockleiter, ou blockwart. Essa função o colocava como líder de quarteirão, responsável por cerca de seis a sete prédios, com a tarefa de coletar taxas, distribuir propaganda nazista e informar sobre o comportamento dos moradores.
Os blockleiters, apelidados pejorativamente de “Terriers de escada”, eram fiscais zelosos que atuavam como o primeiro elo entre a população e o partido. Sua função era crucial para a vigilância e repressão em nível local, garantindo que os ideais do nacional-socialismo fossem seguidos. Relatórios desses líderes detalhavam informações sobre os residentes, incluindo a localização de propriedades judaicas, e eram repassados a organizações como a Gestapo e a SS. Apesar de não ser uma posição de prestígio, a função era central para a estrutura de controle social do regime.
Oportunismo, Dilemas e a Busca por Redenção
Ewald, em sua defesa nos documentos de desnazificação, alega ter se filiado ao partido em 1932, em meio ao desemprego e à promessa de melhora econômica pós-1933, afirmando que as chances de emprego eram mínimas sem a filiação ao NSDAP. Ele relata ter tentado se desvencilhar da função de blockleiter após “obter certa percepção sobre a natureza e o comportamento do NSDAP”, o que resultou em conflitos com seus superiores e sua expulsão do cargo. Cartas de vizinhos e do padre local atestaram que ele nunca se portou como um nacional-socialista convicto.
Apesar de ter sido classificado como “seguidor” pelo governo britânico, Ewald pôde retomar sua carreira, inclusive obtendo uma especialização e se tornando vice-gerente em uma indústria siderúrgica, o que levanta questionamentos sobre a veracidade de seu argumento sobre a impossibilidade de ascensão profissional sem a filiação ao partido. A história de Ewald, assim como a de Hubert, sugere um cenário de oportunismo, onde indivíduos se juntaram ao regime em busca de vantagens, mas também contribuíram para a sua sustentação. A dificuldade em julgar a responsabilidade individual em regimes totalitários é um dilema complexo, especialmente quando a desnazificação acabou por perdoar muitos como “companheiros de viagem”, mesmo diante de um contexto de repressão e antissemitismo já estabelecido desde 1933.
Embora a autora não tenha conhecido Hubert ou Ewald, a descoberta de sua filiação ao partido nazista, mesmo sendo um número pequeno em uma família extensa, serve como um lembrete sombrio de que as ditaduras e o terror podem ser construídos por pessoas comuns, sejam pais, tios ou primos, cujas escolhas e ações, por mais discretas que pareçam, podem ter contribuído para a engrenagem de regimes opressores.
