Farmacêutica Gilead Sciences rejeitou a proposta do governo brasileiro para a aquisição do lenacapavir, um medicamento injetável de ação semestral considerado um avanço significativo na prevenção e tratamento do HIV. A reunião, realizada nesta quinta-feira (30), terminou sem acordo financeiro, e o Ministério da Saúde agora aguarda uma nova oferta da empresa.
O governo brasileiro ofereceu pagar até US$ 400 por tratamento com o lenacapavir, um valor que, segundo o Ministério da Saúde, pode chegar a ser dez vezes superior ao praticado em países com similar perfil econômico, como Indonésia, Tailândia e África do Sul. A proposta também visava a possibilidade de transferência de tecnologia para o Brasil, com o objetivo de viabilizar a produção local do medicamento e seu fornecimento para outros países da América Latina. As negociações abrangem tanto o uso do lenacapavir para profilaxia pré-exposição (PrEP) quanto para o tratamento de pessoas vivendo com HIV.
Em resposta, a Gilead Sciences confirmou o encontro com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, mas optou por não comentar a proposta financeira específica. A empresa declarou estar comprometida em buscar soluções colaborativas para expandir o acesso ao medicamento no Brasil e discutir alternativas sustentáveis de longo prazo. O Brasil ficou de fora dos acordos de licenciamento voluntário que a companhia firmou com outros mercados de renda média e baixa. A farmacêutica também mencionou um memorando de entendimento com a Fiocruz para avaliar oportunidades de transferência de tecnologia e produção regional.
Negociação de Preços e Próximos Passos
A recusa da oferta ocorre em paralelo ao processo de definição do preço máximo de comercialização do lenacapavir no Brasil. Após a aprovação do medicamento pela Anvisa, a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) iniciou a análise de precificação, mas a Gilead recorreu da decisão em 30 de junho. A expectativa é que o processo seja concluído até 28 de setembro, com a divulgação dos pareceres técnicos após o encerramento da fase de recursos. É importante notar que a definição de preço pela CMED difere da negociação conduzida pelo Ministério da Saúde, que busca um valor para incorporação ao SUS.
Este impasse acontece em um momento em que o governo brasileiro tem intensificado esforços para ampliar o acesso a novas tecnologias de prevenção ao HIV. Recentemente, o Ministério da Saúde anunciou um acordo para a aquisição do cabotegravir, da GSK/ViiV Healthcare, a primeira PrEP injetável de longa duração que será oferecida gratuitamente. Além disso, um acordo com a MSD visa acompanhar o desenvolvimento do MK-8527, um comprimido de uso mensal para prevenção ao HIV que ainda está em estudos clínicos e tem potencial de produção nacional futura. Apesar desses avanços, o lenacapavir se destaca pela sua eficácia e pela conveniência da aplicação semestral, o que pode melhorar a adesão à PrEP para indivíduos com dificuldades de manter o uso diário de medicamentos.
