O envelhecimento da população brasileira é uma realidade inegável que transcende ideologias e exige um pacto nacional. Enquanto o país ainda lida com as feridas de recentes polarizações políticas, um desafio comum e inevitável se apresenta: garantir um envelhecimento digno e saudável para todos os cidadãos, independentemente de suas convicções eleitorais. A rápida transformação demográfica do Brasil, que na Europa levou séculos, ocorreu em poucas décadas, elevando a expectativa de vida de 45,5 anos em 1940 para 76,6 anos em 2024. Projeções indicam que em 2070, 40% da população brasileira terá mais de 60 anos.
A ciência distingue entre expectativa de vida (lifespan) e expectativa de vida saudável (healthspan). No Brasil, a diferença entre elas é de alarmantes 12,5 anos, o que significa que muitos idosos vivem anos com má qualidade de saúde. Enquanto a longevidade total se equipara a países desenvolvidos, os anos vividos com saúde nos aproximam de nações com indicadores sociais mais precários. Este cenário, no entanto, não é imutável. O foco deve ser não apenas em viver mais, mas em viver bem por mais tempo, com autonomia e qualidade de vida.
A capacidade de influenciar positivamente o processo de envelhecimento reside em mudanças de estilo de vida, amplamente conhecidas pela ciência: alimentação balanceada, exercícios físicos, relações sociais de qualidade, atenção à saúde mental, combate ao uso de substâncias e controle de fatores de risco como hipertensão e diabetes. A prevenção é a estratégia mais eficaz, o que significa que o cuidado com o envelhecimento deve começar cedo, envolvendo não apenas os idosos, mas toda a população, especialmente os adultos a partir dos 40 anos.
Um Projeto Transversal para a Longevidade
Transformar o envelhecimento em um projeto nacional de longo prazo demanda uma visão que vá além de políticas pontuais de previdência e saúde ou agendas partidárias. É crucial uma abordagem transversal que integre diversas áreas do governo, como economia, segurança pública, educação, trabalho, urbanismo e transporte. As conquistas das últimas décadas, como o Sistema Único de Saúde (SUS), a Farmácia Popular e o Plano Nacional do Cuidado, servem como base para a construção de um futuro mais promissor, incorporando as melhores práticas internacionais.
Países como Japão, Reino Unido, Coreia do Sul, Cingapura e Israel já implementaram estruturas institucionais focadas na governança do envelhecimento. O Japão, por exemplo, possui um ministro dedicado a medidas contra a queda da natalidade e para a sociedade envelhecida, articulando políticas entre finanças, saúde, transporte e reinserção profissional. No Reino Unido, uma Secretaria para a Solidão atuou diretamente no combate ao isolamento social, um problema grave entre os idosos.
Pacto Social e Combate ao Idadismo
Um pacto nacional pela longevidade digna requer participação social, acesso à informação e cuidado intergeracional. A aliança entre saúde e educação ao longo da vida é fundamental para a prevenção de doenças neurodegenerativas. É preciso direcionar recursos para que o bônus demográfico se traduza em qualidade de vida, e não em solidão e desamparo. O combate ativo ao idadismo, o preconceito contra pessoas idosas, é essencial para reinventar a forma como encaramos o envelhecimento em todas as gerações.
Diante do envelhecimento acelerado, o Brasil tem a escolha entre persistir na divisão partidária, que obstrui políticas de Estado, ou unir-se em torno de um desafio comum. Amparados pela ciência, pelas conquistas institucionais e por modelos globais de governança, podemos construir um projeto nacional que priorize o respeito à população, o cuidado e a convivência humana, garantindo um futuro digno para todos.
As informações foram reunidas a partir de dados e análises sobre o envelhecimento populacional no Brasil e experiências internacionais.
