A Estratégia de Netanyahu e o Preço Global
A política de Binyamin Netanyahu, marcada por décadas de consolidação de poder e uma visão de mundo particular, parece ter alcançado objetivos significativos no Oriente Médio. No entanto, essa consolidação veio acompanhada de um custo altíssimo: a percepção global de Israel sofreu uma deterioração drástica, transformando o país em um pária aos olhos de grande parte do mundo. Essa dualidade, um sucesso regional com uma derrota global, reflete uma estratégia que, embora eficaz internamente e em certos aspectos regionais, alienou aliados e minou a própria imagem de Israel.
A recente conjuntura política em Israel, com eleições que colocaram a oposição em uma posição de vantagem modesta, paradoxalmente viu seus principais líderes adotarem muitas das premissas de Netanyahu. A promessa de Gadi Eisenkot em acabar com o domínio do Hamas em Gaza em um prazo definido, a crítica de Yair Lapid à política energética em relação ao Irã, e as declarações de Naftali Bennett e Avigdor Lieberman sobre a Turquia, Qatar e a Autoridade Palestina, demonstram uma convergência ideológica à direita, aceitando em grande parte a visão de mundo do atual primeiro-ministro. A exceção, Yair Golan, reforça a tendência de exclusão de partidos árabe-israelenses de coalizões futuras, um reflexo da homogeneização da visão de Israel.
Essa unidade ideológica, embora fortaleça a posição de Netanyahu internamente, tem um contraponto sombrio: a crescente antipatia internacional. A narrativa de Israel no cenário mundial mudou drasticamente, aproximando-se da perspectiva palestina em Gaza. Essa transformação, um resultado direto dos eventos recentes e da resposta israelense, tem paralelos surpreendentes com os objetivos de líderes como Yahya Sinwar, o falecido líder do Hamas. As informações foram reunidas a partir de análises de fontes políticas e jornalísticas sobre o conflito no Oriente Médio.
A Consolidação da Visão de Netanyahu e a Estratégia de Longo Prazo
Por anos, Netanyahu cultivou uma estratégia que, segundo analistas, envolvia sustentar o Hamas financeiramente através do Qatar. O objetivo declarado era manter os palestinos divididos, enfraquecer a Autoridade Palestina e, crucialmente, impedir a formação de um Estado palestino independente. Netanyahu frequentemente expressou seu orgulho em ter bloqueado essa possibilidade, declarando que não haveria tal Estado a oeste do rio Jordão e promovendo a expansão de assentamentos judaicos. Essa política foi endossada por figuras extremistas em sua coalizão, como Bezalel Smotrich, que chegou a descrever o Hamas como um “ativo”.
O Ataque de 7 de Outubro e suas Consequências Catastróficas
O ataque de 7 de outubro de 2023, orquestrado por Sinwar, resultou na morte de cerca de 1.200 israelenses e na tomada de 251 reféns, marcando o dia mais letal para judeus desde o Holocausto. A resposta de Israel foi avassaladora, com mais de 74.000 palestinos mortos, incluindo mais de 21.000 crianças, e a destruição de grande parte da Faixa de Gaza. Sinwar, ciente das consequências, demonstrou uma disposição implacável em sacrificar vidas palestinas em troca de ganhos políticos, um cálculo que se provou devastadoramente preciso.
A estratégia de Sinwar visava remodelar a percepção global sobre a “questão palestina”, que havia perdido relevância geopolítica. O ataque e a subsequente resposta israelense catapultaram a causa palestina para o centro do debate internacional, levando mais de 150 países, incluindo potências ocidentais, a reconhecerem um Estado palestino. A imagem de Israel sofreu um golpe severo, com acusações de genocídio ganhando força na Corte Internacional de Justiça e na opinião pública mundial. Nos Estados Unidos, a simpatia pela causa palestina superou a israelense entre o público geral, e uma parcela significativa dos jovens e judeus americanos acredita que Israel cometeu genocídio em Gaza.
A Busca por “Vitória Total” e o Isolamento Global de Israel
Apesar da onda inicial de solidariedade global a Israel após 7 de Outubro, Netanyahu optou por uma ofensiva militar em Gaza com o objetivo de uma “vitória total” sobre o Hamas. Essa busca priorizou a destruição do grupo em detrimento da vida dos reféns israelenses e da população palestina. A campanha militar expandiu-se para o sul do Líbano, com ataques ao Hezbollah, e incluiu uma tentativa de alinhar os Estados Unidos contra o regime iraniano.
Contudo, os resultados geopolíticos foram decepcionantes. O regime iraniano e o Hezbollah permanecem de pé, e o Hamas, embora enfraquecido, ainda resiste. A relação especial com os Estados Unidos caminha para o fim, com o apoio incondicional a Israel tornando-se um tema controverso no Partido Democrata. Ex-aliados como Rahm Emanuel alertam para o fim do subsídio americano a Israel e para a percepção do país como um “pária territorial”, distanciando-se de sua imagem de inovação tecnológica.
O conceito de “sucesso catastrófico” descreve com precisão a situação atual. Israel alcançou objetivos militares, mas encontra-se em um atoleiro estratégico e político. Enquanto os palestinos ganham solidariedade internacional, vivem em condições ainda mais precárias sob um domínio israelense cada vez mais confrontador. Israel, por sua vez, embora mantenha o domínio regional, é visto pelo mundo como um agressor brutal, internamente dividido e enfrentando um futuro de isolamento, com o espectro de sanções internacionais e a possibilidade de ser classificado como um regime de apartheid.
A própria identidade de Israel, fundado após um genocídio, agora é questionada pela possibilidade de ser considerado responsável por genocídio. A sugestão de Netanyahu de recorrer a criptomoedas para contornar futuras sanções internacionais, repreendida pelo banco central israelense, simboliza a gravidade do isolamento. Como resumiu o comentarista Ari Shavit, “Vencemos no Oriente Médio, mas perdemos o mundo”. A lógica desastrosa que levou a essa situação, onde a visão de mundo do Likud e do Hamas se reforçam mutuamente, aprisiona ambos os povos, e qualquer esperança de sucesso para a oposição israelense dependerá de sua capacidade de escapar dessa armadilha.
