Almanaque de Saúde Menstrual busca educar e empoderar sobre um tema ainda envolto em tabus e negligência.
A violência menstrual, termo que abrange desde a negligência médica até a falta de informação e acolhimento, será o foco principal do “Almanaque de Saúde Menstrual – Livres Para Menstruar”. O material, desenvolvido pela organização Girl Up Brasil, será lançado nesta quinta-feira (29) em um evento online e estará disponível para download gratuito no site da organização. O objetivo é oferecer um guia completo para meninas e mulheres sobre o ciclo menstrual, suas dores e os direitos relacionados à saúde.
O conceito de violência menstrual é mais amplo do que a pobreza menstrual, que se refere à falta de acesso a produtos de higiene, água limpa e saneamento básico. Segundo Munah Malek, gerente de projetos da Girl Up Brasil, a violência menstrual também se manifesta na negação de uma educação emancipadora sobre o tema, na desvalorização de dores e sintomas, e na falta de proteção para quem menstrua. Episódios como a ausência de protocolos em escolas para lidar com acidentes menstruais, a proibição de pausas no trabalho para alívio de sintomas e a escassez de políticas públicas de saúde menstrual também configuram essa forma de violência.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Girl Up Brasil e estudos sobre a saúde menstrual no país.
A negação da dor e o racismo menstrual em foco
Estudos recentes evidenciam a dimensão do problema. Uma pesquisa da Vital Strategies Brasil, com registros de quase meio milhão de meninas e mulheres no Recife, mostrou que apenas 0,5% das dores menstruais relatadas foram associadas pelos profissionais de saúde aos códigos oficiais de doenças. Outro estudo, dos institutos Alana e Equidade.info, aponta que 4 em cada 10 meninas brasileiras faltam às aulas mensalmente devido às dores menstruais. O almanaque também aborda o racismo menstrual, que descreve como estereótipos raciais levam à ignorância ou minimização da dor de meninas negras, sob a falsa premissa de que elas suportariam mais a dor.
“A violência menstrual que atinge mais populações negras, indígenas, povos originários, povos quilombolas, tanto na questão dos estigmas sobre esses corpos quanto na falta de garantia de acesso a serviços”, explica Malek, destacando que o material busca dar visibilidade a essas realidades.
Conteúdo educativo para todas as idades
Direcionado especialmente ao público jovem, o almanaque oferece informações essenciais sobre o que saber antes da menarca (primeira menstruação), como abordar o assunto em casa e na escola, e um guia prático para o cuidado das dores físicas e emocionais. Inclui também um diário menstrual para auxiliar no autoconhecimento e na preparação para consultas médicas. A publicação é fruto de discussões em grupos com jovens integrantes dos clubes da Girl Up Brasil, que funcionam como espaços seguros para troca de experiências e esclarecimento de dúvidas.
A elaboração do guia contou com a colaboração de ginecologistas, pesquisadores, psicólogos, uma fisioterapeuta pélvica e educadoras, garantindo uma abordagem multidisciplinar e embasada. O almanaque também reforça que a menarca não marca o fim da infância e que o suporte e acolhimento devem continuar. Complementarmente, a Girl Up Brasil lança neste domingo (1º) a mascote Maria Menarquinha, criada para auxiliar famílias na conversa com crianças sobre menstruação, com um caderno de atividades gratuito para download.
