Crise econômica força empresas brasileiras a buscar a justiça em número recorde
O cenário econômico desafiador tem levado um número crescente de empresas brasileiras a recorrer à recuperação judicial. Em junho de 2026, 7.726 organizações já haviam buscado essa medida, um aumento expressivo de 20,5% em relação ao ano anterior. Juros elevados e o aperto no crédito são os principais motores dessa escalada, impactando severamente setores vitais como o agronegócio, o comércio e a indústria.
O agronegócio se destaca como o setor mais afetado, com um salto de 66% nos pedidos de recuperação judicial em apenas doze meses, mais que o triplo da média nacional. O campo encerrou o primeiro semestre com 1.263 processos ativos, sendo a maioria envolvendo pequenos produtores e microempresas. A combinação de queda nos preços das commodities no mercado internacional, condições climáticas adversas e o alto custo de financiamento para insumos e equipamentos criou uma tempestade perfeita para os produtores rurais.
As informações foram apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo.
Comércio e varejo sofrem com perda de poder de compra e margens apertadas
O setor comercial concentra o maior volume de empresas em crise, totalizando 1.649 registros e um aumento de 22%. A perda de poder de compra das famílias brasileiras tem levado à diminuição do consumo direto, enquanto as empresas do varejo lutam com margens de lucro já apertadas e juros que tornam as dívidas impagáveis. Um exemplo emblemático é a Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial em agosto de 2026 após registrar um prejuízo bilionário. A intensa concorrência e a migração dos consumidores para canais digitais agravam a situação.
Indústria de transformação enfrenta desafios financeiros e de adaptação
A indústria de transformação registrou um aumento de 9% nas recuperações judiciais, somando 1.455 empresas. Embora o crescimento seja menor que o do agronegócio, o setor preocupa pelo alto índice de falências, que chega a metade do volume de recuperações. Muitas fábricas acumulam dívidas antigas, contraídas em períodos de juros mais baixos, e agora enfrentam dificuldades para renegociar com bancos mais exigentes em garantias. A fabricante de brinquedos Estrela, por exemplo, além dos desafios financeiros, lida com a necessidade de se adaptar aos interesses das crianças por produtos digitais.
Serviços variam, enquanto grandes empresas buscam acordos extrajudiciais
No setor de serviços, o cenário é heterogêneo. O transporte de cargas sofre com a volatilidade dos preços do diesel e fretes baixos, respondendo por 75% dos pedidos do segmento. Em contrapartida, a área da saúde apresentou uma leve melhora, com queda de quase 4% no número de empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2026. É relevante notar que grandes corporações, como a Oncoclínicas e a Raízen, têm optado por acordos extrajudiciais, buscando renegociar dívidas bilionárias fora do ambiente judicial para agilizar o processo e manter maior discrição.
