O fenômeno climático El Niño, conhecido por causar o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, tem intensificado as mudanças climáticas em todo o planeta, com reflexos diretos na saúde humana. No Brasil, as variações de temperatura, umidade e padrões de chuva — com períodos de estiagem ou precipitações intensas, dependendo da região — criam um ambiente propício para o agravamento de quadros alérgicos, especialmente os respiratórios e oculares.
A relação entre o clima e o bem-estar respiratório é direta, segundo Fátima Rodrigues Fernandes, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai). A especialista explica que a exposição à poluição atmosférica, combinada com variações térmicas extremas, fragiliza as vias aéreas, tornando-as mais suscetíveis a inflamações e infecções. O El Niño, por si só, não é o causador das doenças, mas as alterações climáticas que ele potencializa levam à exacerbação de condições preexistentes.
Asma, rinite alérgica e infecções respiratórias são as manifestações mais comuns desse cenário. Pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), embora não seja uma doença alérgica, também podem ter seu quadro agravado. Situações extremas, como as enchentes que assolaram o Sul do país em 2024, forçaram muitos pacientes a interromper tratamentos e a ter acesso restrito a medicamentos e consultas, funcionando como um fator adicional de agravamento, além das condições ambientais das residências.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).
Impactos além das alergias respiratórias
As consequências das mudanças climáticas induzidas pelo El Niño não se limitam às alergias respiratórias. Ondas de calor e a secura do ar podem descompensar doenças cardíacas, levar à desidratação, insolação e exaustão física. Os olhos também se mostram particularmente vulneráveis, com a falta da barreira mucociliar presente nas vias aéreas, podendo desencadear conjuntivites caracterizadas por coceira, vermelhidão e dificuldade visual, mesmo em indivíduos não alérgicos. Cerca de 80% dos pacientes com rinite alérgica também sofrem com conjuntivite, sendo a hidratação da mucosa ocular uma medida importante.
Medidas práticas para minimizar alérgenos em casa
Para reduzir a exposição a alérgenos domésticos, a limpeza mecânica é fundamental. A remoção de ácaros, mofo e poeira pode ser otimizada com o uso de aspiradores com filtro HEPA em colchões, travesseiros e sofás. A troca semanal de roupa de cama, a evitação de brinquedos de pelúcia e a limpeza de superfícies com pano úmido também são recomendadas. É crucial evitar a exposição à fumaça de cigarro, gasolina e produtos de limpeza com odores fortes. Manter a casa arejada e bem ventilada é ideal para alérgicos a ácaros, mofo e pelos de animais.
O pólen, por ser um alérgeno externo, apresenta um desafio adicional. As mudanças climáticas podem alterar os ciclos de polinização das plantas, prolongando as estações polínicas. Nesses casos, manter a casa fechada e as janelas vedadas é a principal estratégia para impedir a entrada dos grãos de pólen.
Uso de climatizadores e riscos da automedicação
O uso de ar-condicionado requer limpeza e higienização frequentes. Desumidificadores e umidificadores devem operar com controle de umidade entre 40% e 60%, pois tanto o ar excessivamente seco quanto o úmido são prejudiciais. O ar seco irrita as mucosas, enquanto o ar úmido favorece o crescimento de fungos.
A automedicação com descongestionantes nasais é desaconselhada por alergistas devido ao risco de efeito rebote, que pode levar à dependência e ao quadro de rinite medicamentosa. Esses produtos só devem ser usados por, no máximo, um a dois dias em crises intensas. Em crianças pequenas, o uso inadequado pode causar convulsões e arritmias; em idosos, complicações cardiovasculares. A automedicação com antialérgicos também é arriscada, pela possibilidade de erros de diagnóstico, uso de medicamentos inadequados e efeitos colaterais graves.
Tratamento e diferenciação de sintomas
O tratamento ideal para rinite alérgica geralmente envolve sprays nasais anti-inflamatórios à base de corticoide inalatório, que atuam diretamente na inflamação da mucosa nasal. É importante diferenciar uma crise alérgica de uma gripe: a febre é um marcador de infecção, enquanto alergias costumam manifestar-se com coceira, espirros e chiado. No entanto, alergias podem vir acompanhadas de febre se houver infecção secundária. A repetição frequente de sintomas como espirros, coriza e coceira no nariz e olhos (rinite) ou chiado no peito e falta de ar (asma) é o principal indicativo de uma condição alérgica. Indivíduos alérgicos são mais suscetíveis a infecções devido à inflamação crônica das mucosas.
Cuidados para populações vulneráveis e alergias de pele
Crianças, idosos e doentes crônicos devem acompanhar as previsões meteorológicas para se anteciparem a eventos extremos. Em dias de alta poluição, a exposição ao ambiente externo deve ser minimizada. A hidratação adequada das mucosas e da pele, além do consumo de água, é essencial.
As alergias de pele, como dermatite atópica e urticária, também podem ser agravadas por fatores ambientais. A coceira intensa associada à dermatite atópica pode levar ao ceratocone, uma deformação da córnea que pode comprometer a visão e, em casos graves, exigir transplante. O tratamento de ardência nos olhos, seja por tempo seco ou poluição, não deve ser feito com colírios aleatórios; a escolha deve ser individualizada, com colírios hidratantes e lubrificantes sendo uma opção para a população geral em climas secos.
