Diáspora Cubana em Miami: Entre a Esperança em Trump e a Luta pela Sobrevivência na Ilha
Diáspora Cubana em Miami: Entre a Esperança em Trump e a Luta pela Sobrevivência na Ilha

Diáspora Cubana em Miami: Entre a Esperança em Trump e a Luta pela Sobrevivência na Ilha

A realidade complexa da comunidade cubana em Miami se manifesta em desabafos no santuário católico, refletindo o impacto das políticas americanas e da crise na ilha. Na Ermita de La Caridad, um ponto de referência espiritual para a comunidade cubana em Miami, a Irmã Elvira García tem observado uma mudança palpável nos relatos dos fiéis. […]

Resumo

A realidade complexa da comunidade cubana em Miami se manifesta em desabafos no santuário católico, refletindo o impacto das políticas americanas e da crise na ilha.

Na Ermita de La Caridad, um ponto de referência espiritual para a comunidade cubana em Miami, a Irmã Elvira García tem observado uma mudança palpável nos relatos dos fiéis. O desespero com a situação de familiares em Cuba e as próprias dificuldades enfrentadas nos Estados Unidos têm se tornado cada vez mais frequentes. Miami, lar de quase 800 mil cubanos, é o epicentro da diáspora e do lobby cubano fora da ilha. Contudo, a cidade testemunha um realinhamento político significativo, com o eleitorado latino, e em particular o cubano, migrando do Partido Democrata para o Republicano, impulsionado por ações como as novas sanções impostas pela administração Trump à ilha, em meio a uma crise humanitária sem precedentes.

Embora a diáspora cubana não seja um bloco monolítico, a maioria em Miami demonstra apoio às políticas de Donald Trump. Essa postura, no entanto, convive com a contradição de ver compatriotas sofrendo as consequências diretas da asfixia econômica imposta à ilha. O cenário afeta principalmente os imigrantes de classe baixa e média, muitos ainda em processo de asilo, que se vêm forçados a trabalhar em turnos extenuantes para enviar remessas às famílias que permaneceram em Cuba. A Irmã Elvira relata casos de cubanos que dobraram ou até triplicaram suas jornadas de trabalho para suprir as necessidades básicas de seus entes queridos.

A luta pela subsistência e o envio de ajuda

Norges, um engenheiro e ex-professor universitário de 63 anos, é um exemplo dessa realidade. Ele emigrou para Miami há quatro anos, após ser expulso de sua instituição de ensino em Havana e receber a ordem de deixar o país. Norges critica a falta de liberdade para aqueles que não aderem ao Partido Comunista Cubano e relata a repressão contra estudantes que participaram dos protestos de julho de 2021. Sua jornada para os EUA envolveu um voo para a Nicarágua e, posteriormente, uma viagem por terra até a fronteira americana. Atualmente, ele trabalha em uma empresa de engenharia pela manhã e como motorista de aplicativo à tarde e noite. Essa dupla jornada, iniciada no início do ano, visa aumentar as remessas para suas filhas e netas em Havana. Ele envia principalmente alimentos, como carne enlatada, queijo e farinha, além de itens essenciais como painéis solares para garantir eletricidade e ventiladores, buscando humanizar a vida de suas familiares.

As remessas de produtos para Cuba são amplamente mediadas por empresas como a CubaMax, sediada em Miami. O preço dos produtos varia, com um pacote de café custando US$ 6, um botijão de gás US$ 89, e um combo básico de alimentos custando US$ 90. Geradores elétricos e bicicletas elétricas também estão disponíveis a preços significativamente mais altos.

Entre a esperança e a cautela política

O padre Angél Andrés González Guillén, que serve na Ermita de la Caridad há quatro anos, compartilha uma experiência semelhante. Ele deixou Cuba após 22 anos de sacerdócio, a maior parte em sua cidade natal, Holguín, devido ao agravamento da situação econômica e à vigilância estatal dentro da Igreja. A necessidade de prover sustento para seus pais idosos também foi um fator crucial para sua emigração. A Ermita, fundada nos anos 1960, tornou-se um refúgio para imigrantes latino-americanos, especialmente cubanos, e é conhecida como “o coração espiritual do exílio”. O local também sedia eventos políticos e memoriais, como a assinatura de um pacto entre forças opositoras e o aniversário da morte do ativista Oswaldo Payá.

O padre González argumenta que, apesar da aparente contradição, Trump seria visto como um “salvador” caso intervenha diretamente para derrubar o regime cubano. Ele lamenta a perda da cultura cívica e democrática do povo cubano, que, segundo ele, não teve a oportunidade de decidir seu próprio futuro por 67 anos. “Qualquer coisa é melhor do que o que temos hoje”, afirma, indicando um profundo desejo por mudança.

No entanto, nem todos na diáspora compartilham a mesma visão sobre a pressão exercida pelos EUA. Um vice-presidente de uma importante organização da diáspora, que pediu para não ser identificado por receio de represálias profissionais, expressa preocupação com o aumento da fome na ilha, exacerbada pelo bloqueio que afeta o fornecimento de petróleo e colapsa o sistema de saúde. Ele ressalta que os interesses dos EUA nem sempre coincidem com os da diáspora e que a administração Trump não demonstra um interesse genuíno em estabelecer uma democracia “sem tutelagem” em Cuba, citando a experiência da Venezuela como um alerta. A história de intervenção americana em Cuba, desde a Guerra Hispano-Americana, ainda deixa um “sabor amargo” na memória coletiva, lembrando um período em que a ilha se tornou um protetorado dos EUA, um sentimento eternizado em versos de poetas como Bonifacio Byrne.

Tags:

Veja Também

Mulheres lideram compras de cuecas no Brasil, representando até metade das aquisições

Mulheres lideram compras de cuecas no Brasil, representando até metade das aquisições

Pediatria alerta sobre uso de 'canetas emagrecedoras' em crianças e adolescentes

Pediatria alerta sobre uso de ‘canetas emagrecedoras’ em crianças e adolescentes

Cruz Vermelha condena ataques a equipes de combate ao ebola na RDC

Cruz Vermelha condena ataques a equipes de combate ao ebola na RDC

Fungos e bactérias podem sobreviver na Lua, mas sem proliferação, aponta estudo

Fungos e bactérias podem sobreviver na Lua, mas sem proliferação, aponta estudo

Perda de 15% da força muscular já é sinal de alerta para mobilidade na velhice, aponta estudo

Perda de 15% da força muscular já é sinal de alerta para mobilidade na velhice, aponta estudo