Novo estudo lança luz sobre a influência da microbiota masculina na saúde reprodutiva
Um desequilíbrio nas bactérias encontradas no sêmen pode ter um impacto significativo nas chances de concepção e na ocorrência de perdas gestacionais. É o que aponta uma pesquisa recente publicada na revista científica The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health. O estudo sugere que essa alteração, conhecida como disbiose, pode ser um fator subestimado em casos de infertilidade e abortos recorrentes, afetando casais em tratamentos como a fertilização in vitro (FIV).
A pesquisa, que acompanhou 353 mulheres e 191 de seus parceiros em hospitais universitários na Dinamarca e Suécia, analisou a composição bacteriana do sêmen masculino, bem como do intestino e da vagina das mulheres. Os resultados indicam que, enquanto a disbiose intestinal feminina está ligada a maiores dificuldades para engravidar, a disbiose no sêmen masculino mostrou uma associação mais direta com desfechos negativos na gestação.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pela The Lancet Obstetrics, Gynaecology & Women’s Health.
Disbiose seminal: um fator oculto na fertilidade
A disbiose é definida como um desequilíbrio na comunidade bacteriana natural de um órgão ou tecido, com a diminuição de espécies benéficas e o aumento de outras associadas à inflamação. Diferentemente de uma infecção, a disbiose geralmente não apresenta sintomas e passa despercebida em exames de rotina. No caso do sêmen, essa alteração não se reflete em parâmetros tradicionais avaliados em um espermograma convencional, como concentração, motilidade ou morfologia dos espermatozoides.
Os pesquisadores observaram que, entre os casais em tratamento de FIV, apenas 57% dos que tinham parceiros com disbiose seminal conseguiram ter um bebê, em comparação com 85% dos casais cujos parceiros não apresentavam essa alteração. Além disso, a perda gestacional foi cerca de 26 pontos percentuais mais comum em homens com desequilíbrio bacteriano no sêmen. Nas mulheres com histórico de perda gestacional recorrente, o aumento do risco foi de aproximadamente 19 pontos percentuais.
Impacto da microbiota feminina e a necessidade de novas abordagens
O estudo também explorou a disbiose intestinal nas mulheres, associando-a a uma maior dificuldade em obter a gravidez por meio de transferência de embriões em tratamentos de FIV. Cada aumento padronizado no escore de disbiose intestinal feminina correspondeu a uma queda de 6,6 pontos percentuais na chance de gravidez por tentativa. No entanto, essa disbiose não demonstrou aumentar o risco de perdas gestacionais.
Curiosamente, a disbiose vaginal, que tem sido foco de muitas pesquisas sobre o microbioma reprodutivo nos últimos anos, não apresentou uma associação consistente com os desfechos avaliados neste estudo. Um dos autores da pesquisa, Kilian Vomstein, do Copenhagen University Hospital, destacou que esses achados podem mudar a forma como a infertilidade sem causa aparente é investigada, sugerindo a necessidade de considerar a saúde do parceiro masculino de maneira mais aprofundada.
Cautela e próximos passos na pesquisa
Apesar dos resultados promissores, os próprios autores do estudo recomendam cautela. A classificação de desequilíbrio seminal utilizada na pesquisa é considerada exploratória e ainda não foi validada de forma independente. Não existe, até o momento, um teste clínico padronizado para identificar essa condição.
Vomstein ressalta que as descobertas podem influenciar o desenho de futuras pesquisas, incentivando a coleta de amostras de ambos os parceiros e a testagem de intervenções em casais, em vez de focar apenas nas mulheres. Contudo, o estudo apresenta limitações, como a ausência de um grupo de controle com casais férteis e a não inclusão de dados sobre raça e etnia. A pesquisa foi conduzida majoritariamente na Dinamarca e Suécia, o que pode restringir a generalização dos resultados para outras populações.
