Cientistas brasileiros que voltaram do exterior lançam manifesto temendo cortes de recursos e fuga de cérebros
Um grupo de 25 pesquisadores, que retornaram ao Brasil por meio do programa Conhecimento Brasil, criado pelo CNPq em 2024, manifestou apreensão quanto a um possível corte de recursos para a ciência e tecnologia caso o resultado das eleições presidenciais deste domingo (25) não priorize o setor. Em um manifesto divulgado no último fim de semana, os cientistas alertam para o risco de instabilidade orçamentária, que poderia comprometer seus projetos e carreiras, além de desencadear uma nova onda de fuga de cérebros.
No documento, os pesquisadores relembram que muitos tiveram que deixar o país durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022) devido à paralisação na produção de conhecimento e na formação de cientistas. Eles criticam o plano de Flávio Bolsonaro (PL), que, segundo o manifesto, não apresenta compromissos explícitos com o investimento em pesquisa, tecnologia e formação científica. A campanha do candidato não se pronunciou sobre a manutenção de programas de repatriação de pesquisadores.
As informações foram reunidas a partir de dados divulgados pelo CNPq e depoimentos de pesquisadores.
Receio de descontinuidade e impacto no desenvolvimento
O receio dos cientistas é compartilhado por entidades voltadas à ciência. Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), expressou a profunda inquietação da comunidade científica, alertando que a perda de investimento em ciência significa a perda da capacidade de futuro de um país. Ela destacou que o Brasil não suporta mais uma descontinuidade nos investimentos, como a vivenciada entre 2016 e 2022, período em que a retração nos recursos para a pesquisa científica se aprofundou, atingindo os menores níveis durante o mandato de Jair Bolsonaro.
Maria Angélica Pedra Minhoto, coordenadora do Centro de Estudos Sociedade, Universidade e Ciência (Sou_Ciência) da Unifesp, ressaltou que a preocupação dos cientistas vai além de seus laboratórios, abrangendo o desenvolvimento estratégico do país. Ela observou que, embora a retração nos recursos para a pesquisa seja anterior ao governo Bolsonaro, ela se intensificou durante sua gestão. Em contrapartida, 2023 e 2024 têm sido marcados por uma expansão e recuperação importantes no financiamento, segundo Minhoto.
Programas de repatriação e planos de governo
O CNPq informou que o programa Conhecimento Brasil, financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), busca fixar cientistas no país, promover a repatriação e fortalecer a cooperação com pesquisadores brasileiros no exterior. Em 2024, o órgão realizou duas chamadas públicas, aprovando e contratando 600 projetos de redes de cooperação científica com brasileiros no exterior e selecionando cerca de 600 projetos de repatriação de talentos. Desse total, 483 pesquisadores já atuam em universidades e instituições de pesquisa, e 34 em empresas.
O órgão atribui a ampliação dos investimentos ao descontingenciamento do FNDCT durante a transição do governo Bolsonaro para o atual governo Lula (PT). Os recursos cobrem bolsas, auxílios, equipamentos e custeio de projetos. Por outro lado, os autores do manifesto criticam as propostas de Flávio Bolsonaro, como a reorientação do fomento à pesquisa de Capes e CNPq para o impacto econômico e a transferência do ensino superior para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Eles argumentam que seria inviável abrigar o funcionamento de universidades e a produção de conhecimento com o orçamento do MCTI, considerando a dimensão do orçamento do MEC.
Histórias de retorno e desafios enfrentados
A trajetória de Marcela Teatin Latancia, biomédica que estuda a combinação de proteínas no reparo de DNA para combater a resistência a quimioterápicos no tratamento de câncer, ilustra as dificuldades enfrentadas. Ela relata incerteza sobre a liberação dos recursos aprovados para sua pesquisa e teme não conseguir custear os insumos necessários. “O financiamento da ciência está de mãos dadas com a política. É um investimento de alto custo e demora para ter retorno. Por isso é um dos primeiros recursos cortados. Só que, quando esse retorno vem, é grande a recompensa”, afirma.
O biólogo André Machado Xavier, que estudou no Canadá e nos Estados Unidos devido à escassez de oportunidades de financiamento no Brasil, também retornou com recursos do Conhecimento Brasil para um projeto de quatro anos. Ele pesquisa a resposta imunológica do sistema olfatório de roedores, um trabalho de base que pode ter impacto significativo na prevenção de infecções virais, especialmente em cenários como futuras pandemias. Fernanda Rauber, pesquisadora do Nupens/USP, que fez pós-doutorado na Inglaterra e obteve financiamento do Conhecimento Brasil, também enfatiza a importância do financiamento público para garantir a independência das pesquisas, mesmo quando seus resultados contrariam interesses comerciais.
